Logo DCM
Logo DCM
Apoie o DCM

Casa da Moeda dos EUA compra ouro de cartel e o vende como ‘americano’; entenda

A Casa da Moeda dos Estados Unidos,. Foto: Divulgação

A Casa da Moeda dos Estados Unidos, uma das maiores vendedoras de moedas de ouro no mercado global, foi envolvida em um escândalo relacionado à origem do ouro usado em suas moedas de investimento. Anualmente, a instituição vende mais de US$ 1 bilhão em moedas de ouro, todas estampadas com símbolos que garantem a origem 100% americana do metal precioso.

No entanto, uma investigação revelou que, na realidade, o ouro utilizado vem de fontes duvidosas, incluindo a mineração ilegal em países como Colômbia e Nicarágua, o que levanta sérias questões sobre a transparência e a integridade do mercado de ouro dos EUA.

A Casa da Moeda dos EUA, que deveria garantir a origem lícita e ética de suas commodities, tem sido usada como ponto de destino para ouro extraído ilegalmente, principalmente de operações de mineração controladas por cartéis.

Organizações criminosas, como o Clã do Golfo, com base na Colômbia, têm lucrado enormemente com a exploração destrutiva dos recursos naturais, utilizando técnicas ilegais e prejudiciais ao meio ambiente.

A mineração em áreas de difícil controle, como a região de La Mandinga, na Colômbia, ilustra como o ouro ilegal é extraído e, com a ajuda de intermediários, chega a refinar-se em barras que eventualmente entram no mercado global.

Neste processo, ouro ilegalmente minerado é “legalizado” por meio de falsificação de documentação, com o uso de licenças falsas que validam sua origem e permitem sua exportação legal. Após o ouro ser extraído e processado na Colômbia, ele é enviado para os EUA, onde passa por um processo de refino em empresas como a Dillon Gage, uma refinaria em Dallas.

De acordo com o CEO da Dillon Gage, Terry Hanlon, o ouro colombiano é misturado ao ouro derivado de fontes mais legítimas e, uma vez refinado, torna-se “ouro americano”, pronto para ser vendido como tal. “Para eles, o ouro se originou nos EUA”, afirmou Hanlon, refletindo uma prática comum na indústria de commodities.

Garimpo ilegal de ouro ao longo do rio Nechí, em Atioquia, na Colômbia. Foto: Divulgação

Este processo de “legitimação” do ouro ilegal é amplamente aceito na indústria, mesmo quando a origem do metal é suspeita. A Dillon Gage, entre outros fornecedores, não exige garantias de que o ouro extraído de países como a Colômbia tenha sido obtido legalmente, o que facilita sua entrada no mercado de moedas de investimento dos EUA.

A Casa da Moeda, como cliente de Dillon Gage e outros fornecedores, nunca questionou a procedência do ouro, apesar dos alertas sobre os riscos associados ao ouro colombiano. Uma auditoria realizada pelo Departamento do Tesouro em 2024 revelou que a Casa da Moeda dos EUA nunca exigiu que seus fornecedores informassem a origem exata do ouro.

Durante duas décadas, a instituição não aplicou regras que exigem a compensação de ouro estrangeiro com ouro de origem nacional. Mesmo quando fornecedores, como a refinaria Asahi USA, misturavam ouro de diversas partes do mundo, a Casa da Moeda considerava o metal como “ouro americano”, sem realizar verificações adequadas.

O governo dos EUA, embora tenha conhecimento das operações ilícitas de mineração na Colômbia, não tomou medidas eficazes para monitorar e controlar a entrada do ouro ilegal em sua cadeia de fornecimento.

Isso levanta preocupações sobre a falta de fiscalização e a integridade das práticas da Casa da Moeda, que continua sendo uma das principais distribuidoras de moedas de ouro no mercado de investimentos.

Além dos problemas jurídicos e de segurança envolvidos na entrada de ouro ilegal no mercado americano, a mineração ilegal também tem um custo ambiental significativo.

No território do Clã do Golfo, na Colômbia, a mineração destrutiva é realizada com o uso de mercúrio, um metal altamente tóxico que contamina rios e solos, prejudicando a saúde dos trabalhadores e afetando ecossistemas inteiros.

As operações de mineração na região de La Mandinga são particularmente danosas, com a exploração de ouro em áreas proibidas, sem o cumprimento de normas ambientais.

As imagens de grandes áreas de solo degradado, como o garimpo ilegal ao longo do rio Nechí, em Antioquia, são um reflexo da destruição causada por essas práticas. A mineração de ouro ilegal afeta diretamente a biodiversidade e contribui para o agravamento das condições ambientais na região.

Após a divulgação da investigação, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, prometeu investigar as práticas de aquisição de ouro da Casa da Moeda e reforçar as políticas de controle para garantir que os fornecedores cumpram as leis e obrigações de segurança nacional.

“Esta revisão está focada em garantir que os fornecedores de ouro da Casa da Moeda dos EUA cumpram a lei e satisfaçam rigorosamente suas obrigações, e que a Casa da Moeda tome todas as medidas possíveis para continuar protegendo vigorosamente nossa segurança nacional e mantendo a integridade do mercado”, afirmou ele.