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Reinaldo Azevedo aponta erros de Elio Gaspari no endeusamento de Zema

Reinaldo Azevedo e Elio Gaspari. Foto: reprodução

O jornalista Reinaldo Azevedo, colunista do Metrópoles, criticou a coluna de Elio Gaspari que sugeriu que Romeu Zema (Novo), ao atacar o Supremo Tribunal Federal (STF), teria finalmente escolhido “o lado certo” da Inconfidência Mineira. O autor rebate, lembra que a Conjuração foi um movimento de proprietários de escravos, sem povo, e que Zema é um gestor que aumentou a dívida de Minas de R$ 104 bi para R$ 182 bi, só não tendo falido por intervenções do próprio STF que critica:

É de tal sorte o ódio ao STF que toma parte importante do colunismo que a gente é tentado a duvidar da sua espontaneidade. Teria tudo para ser coisa industriada se a tradição do reacionarismo não fosse, quando menos, equiparável à da conspiração.

Nunca treto com opiniões alheias até porque não as leio. As colunas que me interessam são as que trazem informações em “on”. E isso quer dizer que ignoro as dos “offs” e as que registram, como é mesmo?, “conversas com interlocutores”… Afinal, quem tem o que dizer dá seu nome. Se não, planta um interesse. Por que preciso ser freguês desse troço? Adiante.

As coisas aconteceram exatamente assim. “Você leu o que escreveu o [Elio] Gaspari?”, perguntou-me um amigo. E me mandou o trecho, a saber: […]

Vamos lá. O advogado e poeta Cláudio Manuel da Costa foi preso a 25 de maio de 1789, interrogado a 2 de julho e apareceu morto na cela no dia 4 por suposto enforcamento. Especula-se que tenha delatado companheiros de conspiração. O que me interessa, agora, é outra coisa.

Gaspari diz que Zema, desta feita, está do lado certo da Conjuração, à diferença do que sugeriu fala sua em 2023. É mesmo? Nessa metáfora, então, o Supremo passou a ser a Coroa portuguesa, e o ex-governador de Minas, finalmente, teria se aliado a uma forma, vá lá, de “progressismo”?

O melhor livro sobre Inconfidência segue sendo “A Devassa da Devassa” (imagem_, de Kenneth Maxwell, publicado no Brasil em 1977, pela editora Paz e Terra. Libertou o tema do aprisionamento escolar do suposto idílio entre o patriotismo nativista e as supostas ideias do bem, do belo e do juto.

A Conjuração Mineira era um movimento sem povo de proprietários muito ricos, quase todos senhores de escravos. […]

Há indícios de que o “enforcamento“ tenha sido uma tramoia do Visconde de Barbacena, governador da província de Minas e homem da Coroa — a quem a vítima havia servido —, mas provavelmente envolvido com os ditos conspiradores. Como o preso estaria disposto a “falar tudo”, deu no que deu.

Refaço minha pergunta: esse Zema que aí está, que transformou o Supremo no alvo principal dos seus ataques, estaria agora do lado certo por quê? O tribunal que garantiu o triunfo da democracia sobre o golpe e que mandou os criminosos para a cadeia deve ser visto como uma força que aprisiona a nação, de sorte que o pré-candidato do Partido Novo deveria ser visto como um libertador?

O político que vê os Estados do Nordeste como uma espécie de força organizada do atraso merece essa deferência? Esse gestor revolucionário conseguiu a proeza de pegar um Estado com uma dívida de R$ 104 bilhões para elevá-la, depois de sete anos, a R$ 182 bilhões. E a coisa só não foi à breca em razão das intervenções do STF, garantindo-se, inclusive, a suspensão do pagamento da dita-cuja. Eis o homem? […]

Quando se diz que, ao afrontar o Supremo, Zema finalmente escolhe o lado certo da Inconfidência, não há outra interpretação possível: o tribunal seria a força reacionária a ser vencida, e o pré-candidato do Novo passaria à condição de elemento em favor do progresso.

É o que indica a história recente do Brasil? A resposta é “não”. A menos que a pessoa se alinhe com o reacionarismo contra o pacto civilizatório. Corresponde a mandar os fatos para a forca.