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Sakamoto: Rio matou, fraudou eleição e deu grana ao Master, o que não é coincidência

Corpos enfileirados na Penha, zona norte do Rio, após massacre. Foto: Bruna Fantti/Folhapress

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Uma operação desastrosa nos complexos da Penha e do Alemão deixou 122 mortos, dentre eles cinco policiais, em 28 de outubro do ano passado. Seis meses depois, o crime continua operando livremente por lá, mostrando que o saldo foi apenas o de uma pilha de corpos para ser usada como palanque eleitoral.

Com essa montanha de mortos, o agora ex-governador Cláudio Castro (PL) ultrapassou o Massacre do Carandiru (em 1992, 111 presos foram chacinados na extinta casa de detenção do Carandiru, em São Paulo, um evento que cravou uma ferida profunda na consciência nacional sobre o Estado que mata) e não deixou a vida no Rio mais segura. Tratar disso não é “defender bandido”, como o pessoal que não exercita o Tico e o Teco afirma, mas defender a sociedade quando o Estado age como bandido.

Grande parte da população, cansada da violência, festejou o sangue aceitando sem questionar o julgamento sumário trazido pela bala: se a pessoa morreu pelas mãos da polícia, é porque era culpada de algo. O problema é que sede de vingança não sacia a fome por Justiça.

Moradores levando dezenas de corpos para a praça pública rodou o mundo como uma cena de um país em guerra civil, a imagem mais crua do colapso do pacto social, onde quem deveria proteger é incapaz de planejar uma ação em que a inteligência asfixie as receitas e as vendas da criminalidade antes de a força bruta tentar retomar o território.

E policiais, trabalhadores de uma profissão precarizada, que deveria receber salários mais altos, mais equipamentos, formação continuada e de qualidade, morreram porque seus chefes os colocaram em risco desnecessário. Chefes que, agora, vão se candidatar nas eleições prometendo mais sangue.

Cláudio Castro, ex-governador do Rio. Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

Castro foi pai de algumas das operações policiais mais letais da história da região metropolitana do Rio de Janeiro. Além dos 122 mortos na Penha e no Alemão no ano passado, também pariu 28 no Jacarezinho (maio de 2021), 23 na Vila Cruzeiro (maio de 2022), 16 no Complexo do Alemão (julho de 2022), 13 em São Gonçalo e Salgueiro (março de 2023) e 12 em Itaguaí e Vila Ibirapitanga (outubro de 2020).

Um governo que mata tanta gente de forma estúpida e lucra politicamente com isso reforça que vê o Estado como um instrumento para as suas necessidades, sem se preocupar em parecer ridículo. Um governo que segue à risca a velha lógica dos políticos fluminenses que venceram eleições estaduais.

Não à toa, ele deixou como legado um rombo de quase R$ 1 bilhão no RioPrevidência após o fundo injetar dinheiro no Master quando o banco já era visto como uma piada no mercado financeiro. Era dinheiro de aposentadorias de professor com burnout, enfermeira que segura plantão triplo e gari que limpa rua alagada.

E foi condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral renunciou por escândalo que sangrou os cofres públicos em mais de R$ 1 bilhão durante as eleições de 2022. Foram 24 mil pessoas contratadas com dinheiro público, via Fundação Ceperj e Universidade Estadual do Rio de Janeiro, para atuar como cabos eleitorais ilegais. Uma extensa investigação de Ruben Berta e Igor Mello, do UOL, em 2022, levou ao julgamento e revelou a engrenagem. Renunciou para, em uma jogada, tentar garantir que seu grupo político permanecesse no poder.

O governo que matou, fraudou e desviou não viveu uma sucessão de coincidências. Viveu coerentemente com um projeto de poder que trata o Estado como ferramenta privada e a população como dano colateral. O problema é que, enquanto isso continuar sendo recompensado nas urnas (seja por medo, cansaço ou descrença) a conta seguirá sendo paga com aquilo que o Rio já perdeu demais: vida.