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Sakamoto: Outdoor reclama de ‘escravo’ do Bolsa Família e ignora patrão que paga mal

Outdoor na rodovia Prefeito Aziz Lian, entre Holambra e Jaguariúna. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Um outdoor no interior de São Paulo tem sido alvo de críticas e elogios ao reforçar um conhecido preconceito social contra programas de renda mínima. “Deixe de ser escravo (da sua bolsa família). Procure uma atividade remunerada”, diz o anúncio exposto em uma rodovia entre Holambra e Jaguariúna, importante área de produção e comercialização de flores. O anúncio não é assinado.

Não é a primeira vez que algo assim acontece. Por exemplo, no ano passado, um cartaz relacionando o “pessoal do Bolsa Família” à falta de funcionários de uma unidade da rede de restaurantes em um shopping center de São Paulo também viralizou. “Senhores clientes, por favor, tenham paciência, o pessoal do Bolsa Família e da cervejinha não quer trabalhar, estamos com muita falta de funcionários. Obrigado”, disse o aviso. Dada a repercussão negativa, a administração da empresa pediu desculpas.

Para além do preconceito, casos como estes mostram desconhecimento da economia. Melhores condições de salário e emprego é que devem atrair empregados, não um aumento de vulnerabilidade causado pela redução de programas sociais.

A esmagadora maioria dos beneficiários do Bolsa trabalha, sim, e não quer ficar na miséria, mas precisa de uma mãozinha para viver enquanto isso não é possível — afinal, nem todos tiveram acesso à herança ou às mesmas oportunidades. Dados da Secretaria Nacional de Renda de Cidadania do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome apontam que, com a abertura de um negócio próprio, a consolidação de um emprego formal e o consequente aumento da renda, 2.069.776 famílias haviam deixado o Bolsa Família entre janeiro e outubro do ano passado.

Dessas, 1,3 milhão de famílias saíram por causa do aumento dos ganhos totais no domicílio, enquanto quase 727 mil concluíram o período na regra de proteção, mecanismo que permite que o beneficiário continue recebendo metade do valor do Bolsa Família por até 12 meses, mesmo após superar o limite de R$ 218 mensais per capita e desde que não ultrapasse R$ 706. Por quê a regra? Para garantir um processo de saída em que a família esteja amparada diante da possibilidade de perda do emprego ou de fracasso do negócio.

Os que preferem viver na pobreza, recebendo benefício, em vez de buscarem trabalho são um ínfimo grupo — que uma análise rasa quer fazer crer que é a maioria. Vale lembrar que o valor médio do Bolsa pago a 18,9 milhões de famílias em abril foi de R$ 678,22. Achar que a maioria esmagadora dos brasileiros prefere viver de grana fácil é extrapolação de cabeça de rentista que sonha em viver de juros.

Estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), do Rio de Janeiro, apontou, no final do ano passado, que, de cada dez pessoas que recebiam o Bolsa Família em 2014, seis conseguiram deixar o programa assistencial nos dez anos seguintes. Entre os jovens de 15 a 17 anos, a proporção ultrapassou sete em cada dez.

O estudo aponta que a garantia de um mínimo de qualidade de vida foi fundamental para garantir bases para que as pessoas empreendessem ou pudessem conseguir um emprego e, dessa forma, viabilizar a sua mobilidade social. E já está provado que a transferência condicionada à frequência escolar e à vacinação, critérios para participação no programa, eleva essa qualidade de vida.

O IBGE divulgou que a taxa de desemprego no trimestre encerrado em fevereiro foi de 5,8%, a menor para esse período desde 2012, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. Essa taxa baixa impacta no custo da mão de obra mais do que os programas sociais.

De maneira geral, se está faltando gente para determinadas funções, o setor privado precisa melhorar os salários e as condições que paga à base da pirâmide. E não exigir que eles aceitem trabalhar por qualquer coisa ou cortar a grana que os mais pobres ganham para não passar fome.

Ao mesmo tempo, o poder público deve combater mais fortemente a inflação, principalmente dos alimentos, que corrói o poder de compra e a qualidade de vida dos trabalhadores, ajudando a reduzir salários já insuficientes.

Não é só em restaurantes e outdoors de beira de estrada que a mensagem é disseminada. Grandes empresários, em fóruns recheados com gente crescida no leite de pera, têm defendido mudanças no Bolsa Família e no BPC para aumentar a força de trabalho disponível. Por exemplo, representantes do setor da construção civil se manifestaram por mudanças no programa sob a justificativa de que uma suposta “dependência voluntária” prejudicaria a oferta de mão de obra.

A ideia de que o Bolsa provoca falta de mão de obra foi bombada por políticos por anos a fio. Por exemplo, quando deputado federal, o ex-presidente Jair Bolsonaro vinculou o recebimento do programa à vagabundagem. “O Bolsa Família é uma mentira, você não consegue uma pessoa no Nordeste para trabalhar na sua casa. Porque, se for trabalhar, perde o Bolsa Família”, afirmou em entrevista à Record News, em 2012.

“O cara tem três, quatro, cinco, dez filhos e é problema do Estado, cara. Ele já vai viver de Bolsa Família, não vai fazer nada. Não produz bem, nem serviço. Não produz nada. Não colabora com o PIB, não faz nada. Fez oito filhos, aqueles oito filhos vão ter creche, escola, depois cota lá na frente. Para ser o que na sociedade? Para não ser nada”, disse em entrevista ao colunista do UOL Carlos Juliano Barros, em 2015.

Uma preconceituosa matriz de interpretação do mundo considera que o programa é uma “fábrica inútil de produtores de filhos” porque é assim que ele e uma parcela do país enxergam os pobres: um grupo interesseiro que, diante da oferta de uns caraminguás, prefere parar de trabalhar.

O Brasil saiu do Mapa da Fome, segundo o relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo”, divulgado em julho de 2025 pela FAO, a agência das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. Isso não significa que não exista fome no país, mas que agora ela representa menos de 2,5% da população.

Um dos elementos apontados foi a renovação de investimentos em políticas sociais, com impacto direto na redução da fome e da insegurança alimentar. Segundo a ONU, ela teve especial importância para a superação da crise alimentar pós-pandemia de covid-19. No triênio analisado (2022 a 2024), os programas sociais tiveram aumento no que é pago por família — o que começou no Auxílio Brasil e se estendeu com os R$ 150 pagos a mais por cada criança de até seis anos no Bolsa Família. Também houve melhora no Cadastro Único e obrigação de cumprir condicionantes de saúde e educação.

A importância do nosso principal programa de transferência de renda contrasta com o comportamento tacanho de parte do empresariado nacional, que tenta vendê-lo como um estímulo à vagabundagem. Mas isso, claro, não resiste a uma ducha de realidade: a taxa de desocupação hoje é menor do que há dez anos, quando o valor pago pelo Bolsa Família era bem menor. Só a cabeça de alguns que continua a mesma.