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Globo vai à China vender uma “ditadura capitalista de sucesso”. Por Sara Vivacqua

O repórter Felipe Santana na China

Causou enorme surpresa no público brasileiro quando a Globo, historicamente propagadora do liberalismo e do american way of life, admitiu que o planejamento estatal chinês entrega resultados que o setor privado ocidental das “democracias polarizadas” não consegue alcançar.

O Fantástico exibiu, no domingo, o primeiro capítulo de uma reportagem especial da série Entre Dois Mundos, que comparou a infraestrutura de Xangai e Nova York — apenas uma entre várias reportagens escritas e em vídeo, todas explicitamente laudatórias sobre a China.

O repórter, agora transferido de Nova York para Xangai, escolheu cuidadosamente uma linguagem rasa e acessível, com uma explicação simplista — aparentemente correta, mas, em seu contexto, fraudulenta e insidiosa — sobre o sucesso chinês. Em suas próprias palavras: “A palavra-chave é planejamento. Como o mesmo partido está no poder há 80 anos, eles conseguem planejar e executar a obra com o mesmo partido no poder. Enquanto nas democracias, principalmente as que estão polarizadas, a gente vê um monte de político que começa a obra e não termina, e aí o próximo nem quer encostar.”

A China como modelo autoritário e o fracasso das democracias

A Globo implica, de forma distorcida, que a China seria uma “ditadura capitalista eficiente”. O sucesso chinês é atribuído à “estabilidade autoritária” da ditadura de partido único, enquanto a democracia é apresentada como inerentemente ineficiente por autorizar a “polarização” e a descontinuidade.

O aspecto fundamental do sucesso do modelo chinês não é apenas ocultado pela Globo — é deliberadamente obstruído por falsas equivalências. Esta é uma das principais propagandas que precisa ser combatida: o mito da “ditadura capitalista eficiente” como razão do sucesso chinês.

Além de ser caracterizada, nas entrelinhas, como modelo antidemocrático, a China é, por inferência, apresentada como “capitalista”. No entanto, o modelo de Estado e governo chinês, bem como seu crescimento, residem precisamente em seu caráter socialista de produção, redistribuição e planejamento. Seu modelo de participação local da sociedade nas decisões de Estado encontra poucos paralelos no mundo ocidental.

A China de hoje é fruto de uma revolução socialista, em 1949, e é regida por uma Constituição declaradamente socialista. O Partido Comunista no comando do Estado é a força que impede que a classe burguesa se solidifique e coopte o poder político. Esta é uma política central e deliberada do partido Comunista.

Os exemplos abundam; em 2021, o governo chinês desmantelou o império educacional privado lucrativo, ao forçar empresas de tutoria privada a se transformarem em organizações sem fins lucrativos, afetando cerca de US$ 100 bilhões em valor de mercado. A China parte do princípio da propriedade estatal estratégica, segundo o qual setores essenciais, como energia, telecomunicações, bancos e infraestrutura, permanecem sob controle estatal.

O governo chinês lançou a campanha de “prosperidade comum”, forçando bilionários a doar dezenas de bilhões para causas sociais. O governo chinês também destruiu o modelo de negócios de especuladores imobiliários, como no caso Evergrande, para priorizar o princípio de que “casas são para morar, não para especular”.

A China é taxada de antidemocrática quando trata sua soberania de forma estratégica. Esta semana, China acaba de aplicar sua legislação para cancelar a aquisição de sua tecnologia de IA de ponta pela Meta, de Zuckerberg, depois que a empresa tentou uma incorporação offshore, apesar de a tecnologia ter sido subsidiada pelo governo chinês. Trata-se aqui de uma política de segurança nacional e soberania digital para evitar uma potencial operação de espionagem revestida de transação comercial.

Portanto, a cooptação do poder político pela classe econômica — característica central do capitalismo — não prospera na China. No sistema capitalista, ao contrário, bilionários, inclusive internacionais (sionismo), financiam campanhas eleitorais; lobbies corporativos escrevem legislações; executivos migram entre governo e setor privado em “portas giratórias”; e corporações tornam-se “grandes demais para falir”.

É fundamental compreender que a China não é contra o mercado. Ela o entende como parte do processo de desenvolvimento socialista, seguindo a teoria de Deng Xiaoping do “socialismo com características chinesas”. A China é contra o mercado livre sem regras, no qual a classe econômica sequestra as decisões políticas — exatamente o que ocorre nos capitalismos “democráticos” e abertamente autoritários.

O timing político

O timing político desta campanha ideológica da Globo parece oportunista, mais do que acidental. A Globo — uma emissora com longa trajetória de apoio político ao autoritarismo, da ditadura de 1964 ao mensalão, à Lava Jato, ao golpe contra Dilma e à prisão de Lula — precisa desqualificar a democracia em ano eleitoral, justamente quando o grande embate será entre Lula e as forças que se constroem e se unificam a partir do sentimento de descrédito da democracia.

O presidente Lula acaba de se reunir, em um congresso mundial em Barcelona, com líderes progressistas dos cinco continentes preocupados com os sentimentos de desconfiança em relação à democracia, em um esforço conjunto contra a erosão dos valores democráticos, de suas instituições e dos direitos fundamentais — elementos que formam o suporte ideológico da ascensão da ultradireita autoritária.

O que a Globo faz é usar fraudulentamente o modelo chinês para normalizar o autoritarismo. O capitalismo, em sua essência concentradora do poder político e econômico, gerou desastres econômicos e sociais, alguns irreversíveis.

Basta observar as estáveis monarquias do Golfo — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar — onde a prosperidade está concentrada em elites minúsculas, enquanto a população comum, especialmente trabalhadores migrantes, vive em condições de semiescravidão. Suas economias têm dependência estrutural do petrodólar, baixa diversificação produtiva e nenhuma soberania real diante dos Estados Unidos.

Vale lembrar também a estável ditadura de Pinochet no Chile, entre 1973 e 1990, laboratório do neoliberalismo de Chicago, com privatizações massivas, desmantelamento do Estado e crescimento do PIB às custas de desigualdade brutal. Como legado, além do terror de Estado, deixou um sistema previdenciário privado falido, saúde e educação privatizadas e inacessíveis, além de uma ultradireita em ascensão.

O “milagre econômico” da ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1985, também foi um castelo de cartas baseado em endividamento externo e concentração brutal de renda: o bolo cresceu, mas nunca foi dividido.

Se o modelo chinês, deve ser seguido, que seja sobre sua premissa correta – o sucesso do socialismo.

O que está em crise não é a democracia, mas o capitalismo, incompatível com ele e qualquer prospecto de igualdade e soberania. Isso a Globo não mostra.