
Tem um filme meia-boca dos anos 70 que valia pela presença da espetacular Katherine Ross, chamado “Esposas em conflito” (“Stepford Wives”, no original). Mulheres de subúrbio se rebelam e são submetidas a um tratamento misterioso que as transforma em bibelôs de maridos racistas e truculentos. É um terror. Não vou dar spoiler, mas elas se estrepam.
Após meses de tensão, críticas públicas e massacre, Michelle Bolsonaro iniciou um movimento de recuo político e tentativa de reaproximação com o senador presidenciável Flávio Bolsonaro.
O gesto ocorre depois de um período em que a ex-primeira-dama foi alvo de pancadaria não apenas dos enteados, mas também de influenciadores bandidos alinhados à família, como Allan dos Santos e Paulo Figueiredo, ambos foragidos nos EUA e comparsas de Eduardo.
Michelle ultrapassou limites ao ser associada a articulações políticas que contrariavam os interesses do núcleo familiar, especialmente com Tarcísio e Nikolas. Allan chegou a sugerir que ela atuava contra a pré-candidatura de Flávio, enquanto Figueiredo passou a chama-la, entre outras coisas, de “feminista”, o equivalente a belzebu para esse tipo de xarope. O ponto de inflexão ocorreu nesta quarta-feira (29), quando o perfil do PL Mulher, presidido por Michelle, publicou um conteúdo destacando Flávio Bolsonaro à frente de Luiz Inácio Lula da Silva em um cenário eleitoral em São Paulo.
A postagem é um gesto direto de alinhamento após meses de conflito e como sinal de que a ex-primeira-dama tenta reconstruir pontes. Daqui a pouco os dois aparecem juntos num churrasco.
Ela ajoelhou no milho. Em dezembro, quando criticou uma articulação política no Ceará envolvendo o PL e aliados de Ciro Gomes, era outra pessoa. A reação foi imediata. Flávio classificou sua postura como “autoritária”, enquanto Eduardo Bolsonaro e Carlos Bolsonaro davam seus chiliques.
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Altiva, Michelle divulgou uma nota afirmando que não abriria mão de seus valores. “Antes de ser uma líder política, eu sou mulher, sou mãe, sou esposa — e, se tiver que escolher, fico com as duas últimas opções”, disse. Ela também atacou Ciro Gomes e reforçou que não apoiaria alianças que considerasse contrárias aos seus princípios.
A tendência é de novos gestos públicos de alinhamento, especialmente em meio à reorganização do grupo político, que se odeia.
Internamente, o movimento é visto como uma tentativa de sobrevivência política. Ao reduzir o tom e buscar conciliação, Michelle tenta recuperar espaço e manter relevância dentro do bolsonarismo. Em troca, precisará aceitar a liderança dos filhos de Bolsonaro e ajustar sua atuação política.
A avaliação entre aliados é que sua presença ainda pode ser útil, principalmente na mobilização de eleitorado evangélico e feminino.
Não é só isso, porém. Há o fator Bebianno. Michelle é uma sobrevivente, sabe com quem está lidando e não quer acabar com a boca cheia de formiga. Ela pode ser qualquer coisa. Burra, definitivamente, nunca foi. O destino de mulheres de mafiosos que saem da linha não costuma ser generoso.