
A rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) foi resultado de uma articulação conduzida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), com participação direta de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e de lideranças da oposição. O advogado-geral da União teve apenas 34 votos favoráveis, sete a menos que os 41 exigidos pela Constituição, e 42 votos contrários.
Antes de Messias, apenas indicações feitas no governo Floriano Peixoto, em 1894, haviam sido rejeitadas pelo Senado. O placar surpreendeu até aliados pessimistas do governo Lula e expôs a fragilidade da articulação do Planalto no Congresso.
Segundo o Globo, relatos indicam que Alcolumbre passou os últimos dias pedindo votos contrários à indicação, especialmente entre senadores do Centrão e parlamentares independentes. Um interlocutor próximo afirmou: “Ele ligou para vários senadores para pedir votos contra”.
Nas conversas, o presidente do Senado teria repetido frases como “faça o seu papel que eu farei o meu” e dito que “hoje será um dia histórico”. Antes do anúncio oficial do placar, Alcolumbre foi flagrado pelo microfone ao sussurrar ao líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA): “Acho que ele vai perder por oito”.
A articulação também contou com Flávio Bolsonaro, que se reuniu com grupos de senadores nos dias anteriores à votação. Em encontros reservados, o filho “zero um” de Jair Bolsonaro defendeu que a aprovação de Messias ampliaria a politização do Supremo e classificou o chefe da AGU como um quadro ideológico do PT.

Flávio também sustentou que a rejeição abriria espaço para uma nova indicação ao STF caso vença a eleição presidencial de outubro. A possibilidade de mudar a correlação de forças na Corte foi usada como argumento junto a parlamentares da oposição e do Centrão.
Aliados como Rogério Marinho (PL-RN) reforçaram a ofensiva. Durante a sabatina, o líder da oposição afirmou: “O Senado vocaliza o sentimento da sociedade brasileira com essa interferência e a falta de sintonia entre o que quer a sociedade e a maneira como se comportam alguns ministros. É um recado ao próprio governo federal”.
Outro ponto decisivo foi a estratégia de sigilo. Reuniões entre Alcolumbre, Flávio e aliados foram mantidas em reserva, com orientação para evitar discursos no plenário e acelerar a votação. A ideia era impedir uma reação coordenada da base governista quando a derrota se tornasse evidente.
Senadores do governo chegaram a cogitar pedir adiamento da sessão, mas concluíram que ainda poderiam vencer por margem apertada e decidiram manter a votação. O cálculo se mostrou errado.
Antes da ofensiva final da oposição, havia expectativa de que Messias recebesse votos de senadores do PL, especialmente de parlamentares evangélicos próximos ao ministro André Mendonça, que atuou para apoiar a indicação. A entrada de Flávio Bolsonaro na articulação reduziu essa possibilidade.
Nos bastidores, um ministro resumiu o clima antes da votação: “Messias está sendo julgado por crimes que não cometeu”. Após o resultado, aliados do governo passaram a tratar a derrota como um recado político do Senado ao Planalto.