
A primeira unidade do projeto Academia ao Ar Livre, inaugurada pela gestão Ricardo Nunes (MDB) na praça Rotary Club de São Paulo, zona norte da capital, funciona sem profissionais para orientar os usuários e sem regras visíveis de higiene e etiqueta. O espaço foi aberto em 15 de abril e tem acesso livre durante 24 horas.
A academia reúne nove equipamentos de musculação semelhantes aos de unidades tradicionais, permitindo exercícios para diferentes partes do corpo. O piso emborrachado é limpo e seguro, os aparelhos são resistentes e a praça é arborizada. À noite, porém, a iluminação reduzida dificulta a execução dos movimentos.
Durante visita ao local na última quinta-feira (23), a Folha acompanhou frequentadores por cerca de duas horas. Usuários elogiaram a iniciativa e a qualidade dos equipamentos, mas relataram falta de orientação profissional. Os aparelhos têm QR codes que direcionam para vídeos explicativos, instruções de uso e sugestões de treino, mas a reportagem não viu ninguém utilizando a ferramenta.
Especialistas alertam que exercícios feitos de forma incorreta podem causar lesões em articulações, coluna e joelhos. O administrador Paulo Eudes, de 65 anos, praticante de corrida, parou no espaço para fazer musculação e disse aprovar a estrutura.
“Os equipamentos são bons, resistentes. Achei o acesso fácil para todo mundo que anda na avenida [Engenheiro Caetano Álvares]. Pode ter mais, há muitas praças que acomodam bastante gente”, disse. “Quero me manter vivo, sentir dor porque me movimentei, não porque não fiz nada. Aquela dor do sofá, do tempo sentado na cadeira incomoda”, comentou.
Uma academia com foco na saúde coletiva sem profissionais para orientar os usuários nem regras de higiene e etiqueta. Foi o que a reportagem encontrou na última quinta-feira (23) ao visitar a primeira unidade do projeto Academia ao Ar Livre, na praça Rotary Club de São Paulo -… pic.twitter.com/QiJodTCm7S
— Folha de S.Paulo (@folha) April 29, 2026
Eudes afirmou ainda que consegue treinar sozinho por ter experiência, mas defende acompanhamento para outros usuários. “Tenho histórico de atividade física há muito tempo. Treino sozinho, não tenho muita dificuldade e sei o meu limite. Mas muitas pessoas precisam de auxílio, o ideal seria ter alguém olhando, pelo menos numa hora específica da manhã, à tarde e à noite, para que aquele que tem dificuldade possa ser convencido a vir para cá”, sugeriu.
O médico do esporte Clayton Luiz Dornelles Macedo, da Unifesp e diretor da Sbem, afirma que o praticante deveria passar por treinamento antes de usar os aparelhos. “Pensando em saúde pública, precisaria ter alguém que orientasse. Substituir um profissional de educação física por uma tecnologia eu acho temeroso. Precisa ter orientação e priorizar a técnica”, disse à Folha.
A Secretaria Municipal das Subprefeituras informou que vai reforçar a comunicação sobre o uso correto do espaço e a necessidade de acompanhar as instruções pelo aplicativo. A pasta diz que instalará avisos nesta semana e fará campanha de conscientização com moradores do entorno.
Segundo a secretaria, a academia foi criada para transformar espaços públicos em ambientes de promoção de saúde, convivência e bem-estar. “Na cidade de São Paulo apenas 51% dos moradores praticam algum tipo de atividade física e a iniciativa faz parte de um amplo programa municipal de incentivo ao esporte.”
A SP Regula afirmou que vai verificar as condições de iluminação. A prefeitura informou que o investimento na primeira unidade foi de R$ 357,3 mil.
O segurança Antônio Apolônio Costa Neto, de 40 anos, esteve no local com os filhos de 6 e 11 anos, que fizeram exercícios sob sua orientação. Macedo afirma que crianças e adolescentes podem praticar atividades de força, mas precisam de técnica adequada e supervisão qualificada.