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Sakamoto: Alcolumbre derrota Lula, Messias e evangélicos

Lula e Davi Alcolumbre. Foto: Breno Esaki/Metrópoles

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

O presidente do Senado Davi Alcolumbre derrotou o presidente Lula e o advogado-geral da União Jorge Messias, nesta quarta (29), mas também uma parcela de lideranças evangélicas que apoiavam sua indicação ao Supremo Tribunal Federal.

Animados com a possibilidade de mais um ministro evangélico para fazer companhia a André Mendonça, muitos acabaram sendo sócios de uma derrota parruda no Congresso Nacional. O que é algo raro para esse segmento da sociedade.

Ah, mas parlamentares da Bancada Evangélica fizeram campanha contra Messias e celebraram a derrota. Sim, mas isso apenas demonstra que representantes do grupo no Congresso estão mais alinhados ao bolsonarismo do que a lideranças religiosas de fora da política.

Como apontou reportagem de Ana Gabriela Oliveira Lima, na Folha de S.Paulo, o apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Igreja Renascer em Cristo e presidente internacional da Marcha para Jesus no Brasil, o apóstolo César Augusto, fundador da Igreja Fonte da Vida, o bispo Robson Rodovalho, fundador da Igreja Sara Nossa Terra e presidente do Conselho Nacional dos Conselhos de Pastores do Brasil, entre outros, apoiavam a indicação.

Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, não a respaldava, mas defendia o direito de Lula colocar Messias na vaga aberta com a saída de Luís Roberto Barroso.

Jorge Messias em sabatina na CCJ do Senado. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Senadores receberam ligações de pastores e bispos pedindo votos. E o próprio André Mendonça, que é pastor presbiteriano, apadrinhou a campanha de Messias, diácono da Igreja Batista Cristã de Brasília. Mendonça lamentou publicamente o resultado.

Messias citou oito vezes a palavra “Deus” e quatro vezes o termo evangélico ou evangélica em seu discurso inicial na contagem de Ana Gabriela Oliveira Lima e Carolina Linhares, da Folha de S.Paulo. Enquanto isso, André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro, citou três vezes “Deus” e evangélico ou evangélica, quatro, segundo as notas taquigráficas do Senado de dezembro de 2021, quando foi sabatinado.

Ou seja, em termos de tempo de dedicação à religião no discurso inicial, Messias foi mais “terrivelmente evangélico” do que o próprio André Mendonça. A expressão foi usada por Jair Bolsonaro ao prometer a indicação de um ministro com perfil conservador e cristão ao STF. A diferença talvez resida no fato de que Messias tentava convencer a oposição. É fez isso, inclusive, criticando a expansão do direito ao aborto.

A derrota indica que a força política do segmento evangélico depende da relação estabelecida com outros grupos conservadores e que lideranças religiosas e parlamentares nem sempre caminham na mesma direção. Já vimos isso em outros momentos, como na regulamentação das apostas online, em que pastores e bispos ajudaram na campanha contra e foram derrotados.

No meio disso tudo, o conceito de “terrivelmente evangélico”, criado para garantir apoio político de um segmento da sociedade, mostrou-se mais retórico do que determinante. No jogo real de poder, credenciais religiosas podem até abrir portas, mas não garantem passagem. Em Brasília, como ficou evidente, fé e política frequentemente seguem caminhos paralelos — e, às vezes, opostos.