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Reitor da USP foge de reunião sobre greve e revolta estudantes

Aluísio Segurado, reitor da USP (Universidade de São Paulo)

Por Miguel Worcman, escritor, repórter e estudante de Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

O reitor da USP (Universidade de São Paulo), Aluísio Segurado, abandonou uma reunião nesta quinta-feira (30) com o comando de greve estudantil, segundo o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da instituição.

De acordo com representantes do movimento estudantil, Aluísio se recusou a discutir o aumento das bolsas de auxílio (pauta central da greve dos discentes) e deixou a sala no meio da conversa, alegando ter um “compromisso extraoficial”. Os alunos afirmam que ele se sentiu incomodado com os gritos vindos do ato que ocorria do lado de fora, em que os manifestantes gritavam: “Aluísio, seu vacilão, sucateou a educação”.

“Às 17h, o sr. Reitor, Aluísio Segurado, levantou tremendo da mesa de negociação com os estudantes, se recusando a debater sobre o aumento real do PAPFE [Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil]. A mesa voltou agora com a vice-reitora e estão debatendo sobre o PAPFE. As perguntas que não querem calar: o Aluísio se levantaria de uma mesa de negociação com o Tarcísio de Freitas? Por que o Aluísio tem medo de falar sobre o PAPFE?”, diz o DCE em publicação no Instagram.

 

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Um post compartilhado por DCE Livre da USP (@dceusp)

A reunião de hoje foi o segundo encontro da reitoria com os estudantes. A primeira mesa de negociações ocorreu nesta terça-feira (28), quando estudantes e trabalhadores se juntaram em um ato em frente à reitoria da USP, que está em greve desde o dia 14 de abril. O protesto foi convocado para pressionar a administração da faculdade, que havia marcado uma reunião de negociação com o Comando de Greve dos estudantes às 14 horas, mas Aluísio também não compareceu.

A manifestação contou com centenas de pessoas, desde estudantes dos mais variados cursos da universidade, até funcionários do bandejão e servidores técnico-administrativos da universidade. Os participantes carregavam cartazes de protesto e bandeiras. No meio da multidão, havia um carro de som, em que se revezavam no microfone gritos de indignação e de parabenização pelo tamanho do ato.

Uma série de intervenções artísticas, colocadas em frente à porta da reitoria, compunha o mosaico da manifestação. Um boneco com a cara do reitor foi queimado no meio da rua, acompanhado de gritos de “Fora Aluísio”.

Aluísio foi designado para o cargo pelo governador de SP, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para cortar gastos, implementando um pilar de “modernização” na universidade, com foco na utilização de inteligência artificial e no ajuste das contas. Sua postura diante da greve tem causado revolta. Segurado enviou apenas seus delegados para a reunião de terça. Na assembleia dos estudantes realizada logo depois, a decisão foi clara: o reitor deve comparecer pessoalmente às reuniões, ou as mobilizações da greve podem se intensificar.

Estudante de medicina com cartaz contra o governador de SP, Tarcísio de Freitas, o reitor da USP, Aluísio Segurado, e a diretora da Faculdade de Medicina, Eloisa Bonfá

Mesmo com o fim da greve dos funcionários, que tiveram parte de suas demandas contempladas e saíram com conquistas importantes, o Sindicato dos trabalhadores da USP (SINTUSP) aprovou uma paralisação de meio período para que os funcionários pressionassem a reitoria a atender as demandas dos discentes.

A administração já apresentou propostas aos representantes do comando de greve, entre elas o reajuste do auxílio estudantil e a criação de um ônibus circular gratuito no campus, em uma reunião na última quinta (23), uma semana depois da morte de Rafael Gomes de Abreu, trabalhador terceirizado da USP. Rafael ficou soterrado durante uma obra no campus da USP em Piracicaba (SP).

Apesar dos avanços, os estudantes avaliam que grande parte das reivindicações segue sem atendimento, e a paralisação foi mantida. Está prevista para esta quinta-feira (30) mais uma rodada de negociação com a reitoria.

O DCM foi ao ato e conversou com lideranças estudantis e sindicais para entender os rumos da greve. Bruno Gilga Rocha, representante da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) no comando de greve dos trabalhadores da USP, explica a importância da luta conjunta dos funcionários e estudantes.

“Essa aliança é fundamental, é a força que pode resistir e barrar esses ataques da reitoria e do governo Tarcísio, de desmonte e elitização da universidade, de tornar a universidade cada vez mais voltada para o que eles chamam de interesses do mercado, que na verdade são os grandes empresários de São Paulo”, diz ele.

Alunos de Letras da USP em ato em frente à reitoria

Rocha comenta que desde a primeira reunião antes da greve de trabalhadores da USP, já era discutido que um dos eixos prioritários da greve dos funcionários eram as pautas do movimento dos estudantes. “A nossa luta é a mesma luta. É contra o mesmo inimigo, que é a Reitoria, que é o Governo do Estado, mas é também contra os mesmos alvos, contra as mesmas políticas, contra o mesmo projeto de universidade da Reitoria e do Governo: cada vez mais elitista, cada vez mais privatizado”, comentou.

Sobre a união com os trabalhadores terceirizados, Bruno Rocha ressalta que tanto os terceirizados quanto os efetivados fazem parte da mesma categoria: os trabalhadores da USP. “Somos igualmente necessários para que a universidade funcione, igualmente parte dessa universidade. Portanto, deveríamos ter as mesmas condições de trabalho, os mesmos salário”, explica ele.

Os terceirizados na USP chegam a ganhar três vezes menos que os efetivados, além de terem menos direitos trabalhistas e serem duramente reprimidos em caso de suspeita de algum tipo de mobilização política. “Tem orientação explícita das empresas para não conversar com os estudantes, para que justamente não possam criar laços, não possam ser influenciadas e influenciar, para que a gente não possa se unir e ajudar a se organizar. Não podem conversar com a gente. Ao menor sinal de qualquer coisa são transferidas para outro lugar, sofrem descontos em coisas como a cesta básica e coisas desse tipo.”

O real propósito da terceirização é a divisão da classe trabalhadora, avalia Rocha. “Quando entrei aqui na USP anos atrás, grande parte das coisas que hoje estão terceirizadas eram feitas por trabalhadores efetivos e quando a gente parava na nossa greve, paravam os circulares, por exemplo. Paravam todos os bandejões, porque nenhum deles estava terceirizado quando eu comecei. Então eles vão fazendo isso justamente para nos dividir, dividir a nossa luta. Então não é que esse é um efeito colateral. É o objetivo central da terceirização: nos dividir.”