
O DCMTV recebeu Roberto Tardelli, advogado e ex-procurador de Justiça, para analisar o resultado da votação no plenário do Senado que, por 42×38, teve o nome rejeitado para uma cadeira no STF.
O resultado é considerado por Tardelli um baque com efeitos colaterais na relação da base governista no Congresso e entre os poderes da República.
Tardelli entende que essa manobra pode ter efeitos mais danosos para a manutenção dos poderes do que foi o golpe contra Dilma Rousseff. “Eles querem o caos. Se o Judiciário cair, o Executivo cai junto”, diz ele.
Pior que o impeachment de Dilma
Esse momento é ainda mais grave que o impeachment de Dilma porque envolve uma possível destruição institucional mais profunda, mirando o Judiciário. Se o Judiciário cair, o Executivo cai junto. Por isso, é necessário agir com lucidez. A briga política precisa ser bem conduzida. Não se pode simplesmente demitir todos de uma vez, especialmente em ano eleitoral. É um processo delicado.
Naquela época, houve uma transição relativamente pacífica para Temer. Agora não, agora a aposta é no caos, na bagunça completa, até para eventualmente favorecer uma intervenção externa.Messias agora carrega não só uma derrota pessoal, mas uma derrota histórica do governo, algo que entra para os livros. É comparável à queda inédita de um grande clube para a Série B: uma marca difícil de apagar.
Ele também virou alvo do ódio da extrema direita, por sua ligação com Lula e Dilma. Isso pesou contra ele. Hoje, ele simboliza um governo que setores querem enfraquecer não necessariamente derrubando o presidente, mas gerando caos institucional.
Alcolumbre, o traidor
Alcolumbre traiu Lula de forma rasteira e vulgar e tem um terço dos cargos de confiança do governo. Ele faz parte do poder. O poder se exerce não apenas através de uma pessoa, mas também daqueles que ela indica para cargos. E o Lula parece ter dado uma declaração agora considerando rompidas, de forma definitiva, as relações com Alcolumbre. Eu acho que essa atuação na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em que houve traições gigantescas, resultou num placar elástico, pois não foi apertado, foi uma surra. Certamente, o presidente Lula não teria submetido o seu candidato a esse massacre, algo que só ocorreu no governo Floriano Peixoto, quando o Senado rejeitou uma indicação ao Supremo Tribunal Federal ainda no século XIX.
Ele não submeteria seu candidato, que é uma pessoa muito correta, a esse vexame. O Alcolumbre o atraiu para uma cilada, depois de cobrar cargos e poder, porque o cargo não é só poder pessoal, é também uma forma de dividir a administração. O Alcolumbre tem uma participação enorme na administração Lula e, ainda assim, faz esse gesto de traição, algo inédito na história do Brasil, sinalizando um cenário preocupante para amanhã.
Alcolumbre agora se posiciona ao lado da extrema direita e deve agir como adversário. Resta saber se o governo tem força para sustentar esse embate. Eu só traio alguém quando tenho para onde ir. O Alcolumbre está agora com a extrema direita, está na presidência do Senado e, sendo inimigo, vai se comportar como tal. A questão que fica é: o governo tem condições de bancar essa briga?
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— PT Brasil (@ptbrasil) April 30, 2026
A dosimetria virá como uma tragédia legal
Eu tenho maus presságios. Essa revisão da chamada dosimetria pode ser uma tragédia legal, não só em relação aos condenados pelos atos golpistas, mas principalmente em outros casos que essa lei pode atingir. Podemos acabar liberando estupradores e abusadores sexuais. A extrema direita está mostrando que está apostando tudo. Não é uma aposta gradual, é total, talvez porque já percebam que Bolsonaro pode não ser candidato.
Sem um candidato estável, eles apostam no caos. Há também discussões de bastidores sobre Flávio Bolsonaro. Com todo respeito, não sei o que se pode fazer de imediato além de esperar que o Supremo Tribunal Federal seja acionado novamente e declare a inconstitucionalidade. O STF está sendo chamado a agir como nunca na história.
Esse projeto é considerado lunático porque nasce como reação a uma decisão judicial. Isso significa que não é mais o Judiciário que julga, mas sim interesses políticos momentâneos, gerando caos institucional.
Isso compromete qualquer política de combate à criminalidade, porque rompe a parceria entre os poderes. Ao mesmo tempo, vemos propostas irracionais, como aumentar penas de forma desproporcional. A extrema direita mostra que veio com força e, na ausência de um candidato, pode tentar até melar as eleições, criando um caos institucional, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, onde já estão organizados.
Relatos mostram situações preocupantes, como em Florianópolis, onde milícias estariam atuando com apoio da prefeitura, substituindo funções institucionais. Há sinais claros de articulação para impedir o processo eleitoral.
Também entra o cenário internacional: uma tentativa de influenciar Trump com narrativas sobre o Brasil. Trump, enfraquecido nos Estados Unidos, busca inimigos externos. Há ainda previsões de que o Congresso pode derrubar vetos do presidente com ampla margem.
Tudo isso tende a voltar ao Supremo, que novamente será acusado de ativismo judicial. Hoje, ministros viraram figuras públicas altamente expostas. André Mendonça, por exemplo, lamentou a rejeição de Messias, elogiando seu caráter e dizendo que o Brasil perdeu um grande nome.
Os erros do governo
Sobre o governo, há questionamentos se errou ao se afastar do Supremo em crises recentes. O caso do Banco Master e possíveis delações futuras podem esclarecer isso. Existem várias frentes de investigação que podem atingir setores políticos importantes.
O cenário eleitoral também preocupa: campanhas devem ser agressivas e de baixo nível, sem debate político real. A extrema direita aposta na destruição, não no diálogo.
Agora há sinais de rompimento definitivo entre o governo e Alcolumbre, com aliados defendendo demissões de indicados. Mas isso pode gerar mais caos administrativo. É preciso cautela, não decisões no calor do momento.
A situação de Messias
Messias declarou que lutou o bom combate e aceita o plano de Deus em sua vida. Ele ressalta que tem 46 anos, uma trajetória limpa e que passou por meses de desconstrução de imagem, com mentiras. Mesmo assim, diz ser grato a Deus e ao presidente Lula pela confiança e pela oportunidade. Para ele, isso não é o fim, mas uma etapa.
Há, porém, uma leitura de que Messias está profundamente impactado. Sem entender completamente o que aconteceu, recorre à fé como explicação. Ele provavelmente acreditava que seria aprovado ou, no pior cenário, perderia por margem apertada, mas não aconteceu.
Internamente, pode haver frustração, raiva e contradições. Ele pode até estar agradecido agora, mas sentimentos podem mudar com o tempo. A situação é emocionalmente forte, e o momento pede recolhimento. Não é hora de tomar decisões ou reagir impulsivamente.
“Lei Bolsonaro”
A derrota sinaliza força e articulação da extrema direita. Há também especulações sobre estratégias legislativas para beneficiar Bolsonaro. Fala-se até em “recortes cirúrgicos” para atingir casos específicos, algo que, na prática, criaria leis com destinatário certo, o que contraria princípios do direito.
Um exemplo citado é a chamada “Lei Beckham” na Espanha, criada para favorecer jogadores estrangeiros. O paralelo seria uma espécie de “lei Bolsonaro”, com o objetivo de reduzir penas e permitir sua volta ao cenário político. Esse tipo de manobra jurídica é altamente controverso e, se levado adiante, deve ser questionado no Supremo.
A indicação futura
Ao mesmo tempo, há um clima de mobilização nas redes, leitura de mensagens do público e críticas diversas, que vão desde ataques ao Congresso até questionamentos sobre estratégias do governo e escolhas políticas. Também surgem debates paralelos, como a questão de gênero em comentários públicos, mostrando como o ambiente está polarizado até em detalhes.
No fim, a análise aponta para a necessidade de manter a cabeça fria. Apesar da frustração e irritação, não se pode agir no impulso. O presidente não pode governar com emoção, mas com responsabilidade institucional. A rejeição de Jorge Messias é maior do que o próprio episódio: ela revela uma extrema direita organizada e pronta para agir em bloco quando necessário. Mesmo sem unidade total, eles se unem nos momentos decisivos.
A expectativa é de novos embates duros no Congresso, com tentativas de demonstrar força e enfraquecer o governo, criando instabilidade institucional. A reação do governo precisa ser firme, mas estratégica. Não pode ser baseada em vingança ou impulso, sob risco de agravar ainda mais a situação.
Por fim, há um ponto essencial: ser de esquerda implica não adotar os mesmos métodos da extrema direita. Se isso acontecer, perde-se a distinção fundamental entre os dois lados. E essa diferença – ainda bem – precisa ser mantida.