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Bilionário apontado como “dono oculto” do Master é investigado por ameaçar gestor

O bilionário Nelson Tenure. Foto: Divulgação

A Polícia Federal investiga o empresário Nelson Tanure por ameaça, perseguição e intimidação contra o gestor de fundos Vladimir Timerman, fundador da Esh Capital. O caso foi enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) em março pela 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo e poderá ser incorporado às investigações já conduzidas pelo ministro André Mendonça sobre o Banco Master.

Em janeiro, Tanure foi alvo de busca e apreensão durante a segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura fraudes envolvendo o Banco Master e suspeitas de que o empresário seria sócio oculto da instituição financeira.

O principal acusador de Tanure é Timerman, que afirma desde 2023 que o empresário seria o verdadeiro controlador do banco. Em depoimento prestado à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado, no Senado, em março, o gestor declarou que Tanure seria o “poder oculto por trás do Banco Master” e classificou Daniel Vorcaro como “garoto de recados” e “pau-mandado” do bilionário.

Segundo a investigação, Timerman relatou ao Ministério Público Federal (MPF) ter sido alvo de monitoramento em tempo real, assédio judicial, ameaças físicas e tentativas de silenciamento após denunciar irregularidades envolvendo o bilionário e o Master.

Vladimir Timerman, da Esh Capital, em depoimento à CPI do Crime Organizado. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O pedido para que o inquérito fosse remetido ao STF partiu do próprio Timerman. Ele argumentou que as ameaças descritas por ele teriam semelhanças com o modus operandi atribuído pela PF à chamada “Turma” de Vorcaro, grupo investigado por intimidação de adversários, ataques à reputação de críticos e invasões de sistemas oficiais.

As investigações apontam que eles usavam um grupo de WhatsApp chamado “Turma” para discutir estratégias de pressão contra pessoas consideradas obstáculos aos interesses do esquema. Entre os participantes citados pela PF estava Luiz Phillipi Mourão, conhecido como Sicário, que morreu após ser preso pela operação.

A defesa de Tanure negou qualquer vínculo societário com o Banco Master e afirmou que Timerman fez diversas acusações para tentar reverter uma condenação judicial em que foi condenado por perseguição.

Os advogados do bilionário disseram que Timerman “ostenta condenações no Poder Judiciário e já perdeu a primariedade por ter também perseguido e difamado” ao menos outras três pessoas.

Reportagem de 2000 já cercava Tanure de polêmicas

Muito antes de voltar ao centro de escândalo do Master, Tanure já aparecia associado a operações controversas em uma extensa reportagem publicada pela revista IstoÉ Dinheiro no ano 2000. O texto apresentava o empresário baiano como alguém especializado em lucrar com empresas quebradas, negociações litigiosas e operações cercadas de influência política.

A matéria foi publicada após Tanure fechar um acordo milionário relacionado à venda do banco Boavista para o Bradesco. Segundo a revista, um grupo de grandes empresas concordou em pagar R$ 156 milhões ao empresário para que ele retirasse ações judiciais que impediam a conclusão da operação. Parte do pagamento seria feita em dinheiro, outra em imóveis e títulos públicos.

Tanure havia comprado, por meio de uma empresa offshore, participações ligadas às antigas ações do banco Boavista depois que a família Paula Machado vendeu a instituição por apenas R$ 1 aos novos controladores. Quando o grupo decidiu revender o banco ao Bradesco, encontrou a ação judicial movida pelo empresário como obstáculo para concluir o negócio.

A atuação de Tanure era agressiva e baseada em pressão permanente nas negociações. Costumava desgastar adversários em reuniões longas e sucessivas até conseguir acordos favoráveis. O caso do Boavista mobilizou figuras influentes da política nacional, incluindo o então presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, e o publicitário Mauro Salles, chamado para tentar destravar as negociações.

Daniel Vorcaro, André Valadão (líder da Lagoinha) e Henrique Vorcaro. Foto: reprodução

Tanure se especializou em empresas quebradas ou concordatárias. Ele acumulou participação em negócios como a fabricante de turbinas Sade, o estaleiro Verolme e a Sequip, ligada ao setor de petróleo. Em determinado momento, segundo a revista, chegou a controlar cerca de 80% do setor de estaleiros no Brasil antes de afundar em dívidas estimadas em US$ 600 milhões.

Em 1991, no governo Collor, fundos de pensão de estatais compraram US$ 12 milhões em ações da Sade, empresa ligada a Tanure. A então ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, foi acusada de pressionar os fundos a participarem da operação mesmo diante de pareceres técnicos contrários.

Segundo a reportagem, a relação do empresário com integrantes do governo era próxima. A revista citava amizade com o senador Jáder Barbalho e o ex-ministro Bernardo Cabral. Também relatava que Tanure costumava emprestar um sítio em Itaipava para encontros entre Zélia Cardoso de Mello e Bernardo Cabral durante o auge do escândalo político envolvendo os dois ministros.

Nos anos 1970, a construtora Cinassa, ligada a Tanure, teria usado apartamentos vendidos a compradores como garantia de empréstimos bancários que depois não foram quitados. Quando tentaram registrar os imóveis, os proprietários descobriram que as unidades estavam comprometidas em operações financeiras da empresa. A revista comparava o episódio ao que décadas depois ficaria conhecido no escândalo da Encol.

A situação fiscal das empresas de Tanure chamavam atenção. As Indústrias Verolme figuravam entre os maiores devedores do INSS no Rio de Janeiro, com dívida estimada em R$ 250 milhões. Além disso, o BNDES cobrava judicialmente outros R$ 90 milhões ligados ao estaleiro.

Apesar do histórico de conflitos empresariais, sempre foi avesso à exposição pública. O empresário vivia em Nova York com a família, em um apartamento na Park Avenue, próximo ao hotel Waldorf Astoria e ao Central Park. Sua mudança para os Estados Unidos teria sido motivada pelo aumento da violência no Rio de Janeiro após uma tentativa de sequestro envolvendo familiares de pessoas próximas ao casal.