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Bastidores: set de “Dark horse” teve champanhe na prisão de Bolsonaro

Jim Caviezel como Jair Bolsonaro em Dark Horse, sentado, sorrindo para a câmera, com bandeira do Brasil ao fundo
Jim Caviezel como Jair Bolsonaro em Dark Horse – Divulgação

As filmagens de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro (PL), foram marcadas por tensão nos bastidores entre parte da equipe técnica e os líderes do projeto. Segundo relatos de participantes ao Globo, muitos profissionais eram progressistas, como é comum no meio audiovisual, enquanto nomes à frente da produção eram identificados com o bolsonarismo e o trumpismo, como o roteirista Mário Frias e o diretor Cyrus Nowrasteh.

“Dark Horse”, ou “azarão”, narra a facada sofrida por Bolsonaro em 2018 e sua ascensão à Presidência. A produção teve patrocínio do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, preso sob acusações de lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa, táticas de intimidação, coerção e outros crimes. Em dezembro de 2025, o DCM já havia publicado uma matéria sobre as denúncias contra a produção.

O momento de maior tensão teria ocorrido no chamado “dia do rolo 100”, tradição do cinema que marca a chegada ao centésimo rolo de filme. Com a digitalização, a celebração passou a ocorrer no “cartão de memória 100”, mas a expressão antiga permaneceu entre os profissionais.

A data caiu em 22 de novembro de 2025, dia da prisão de Jair Bolsonaro. Segundo os relatos, parte da equipe abriu champanhes e celebrou de forma ostensiva, usando a “desculpa” da festa do “rolo 100”, enquanto Frias e outros bolsonaristas lamentavam nos bastidores.

Desde o início das gravações, os chefes do projeto orientaram as equipes a evitar símbolos ligados à esquerda, como roupas vermelhas ou referências ao MST.

Com o andamento da produção, técnicos também passaram a questionar o uso de bonés e roupas das lideranças com símbolos como a bandeira estadunidense adornada por fuzis. “A gente concordava em não usar vermelho, mas pedimos que eles também não usassem aquilo”, relatou uma pessoa que participou do filme.

Jim Caviezel como Jair Bolsonaro em “Dark Horse”. Foto: reprodução

Integrantes da equipe afirmaram que alguns profissionais resistiram a trabalhar no projeto por causa da natureza ideológica da produção. Parte deles só teria aceitado por receber cachês acima da média do mercado. Uma participante, segundo os relatos, perdeu outro trabalho depois que os responsáveis souberam que ela estava em “Dark Horse”. “Ela chorou no set”, contou um profissional.

Os relatos também apontam que “Dark Horse” contou com estrutura acima da média das produções brasileiras. As filmagens duraram cerca de dez semanas, tempo superior ao de muitas séries com vários episódios. “Tudo era filmado com calma, a gente filmava três páginas de roteiro por dia, quando o normal no cinema é cinco ou seis”, disse um integrante da equipe.

Em boa parte das diárias, o set reuniu entre 250 e 300 figurantes, ao menos três equipes de câmeras e, em alguns dias, até cinco. A produção também usou equipamentos sofisticados, como gruas Scorpio com braço robótico. Atores estadunidenses, como Jim Caviezel e Esai Morales, tinham trailers de apoio e stand-ins para ajustes de luz e câmera, estrutura considerada incomum em filmagens no Brasil.