
O roteiro vazado de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro estrelada por Jim Caviezel, conseguiu um feito raro: criar um vilão chamado “Cicatriz” que simplesmente não tem cicatriz nenhuma. No filme escrito por Mário Frias e pelos irmãos Nowrasteh, o traficante Paulo Pontes é apresentado como “Cicatriz”, um poderoso chefão do crime preso pelo então capitão Bolsonaro nos anos 1980.
O apelido aparece com toda a pompa possível em letras garrafais: “PAULO PONTES aka ‘CICATRIZ’. DRUG CZAR.” Só que o roteiro resolve inovar na semiótica: o sujeito remove a tatuagem/cicatriz do pescoço e passa boa parte da história escondendo o antigo visual com barba. Resultado: o personagem chamado “Cicatriz” passa o filme tentando provar que não é mais “Cicatriz”.
A revelação acontece quando Bolsonaro reconhece o criminoso durante uma conversa numa mansão. O roteiro descreve o ex-presidente observando “uma tatuagem claramente removida” que ia do pescoço ao rosto. Em seguida, vem o momento Xeroque Romes: “Senhor ‘Cicatriz’…”
O herói então desliza o dedo pelo próprio rosto para mostrar onde ficava a marca apagada, num gesto que parece saído de uma novela da Record. O personagem ainda entrega algumas das falas mais involuntariamente cômicas do roteiro.
Em outro trecho, um comparsa tranquiliza o assassino dizendo apenas: “This is Brazil.” A frase aparentemente substitui plano de fuga, logística e qualquer noção de realidade.
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O universo de “Dark Horse” também inclui socialistas caricatos, jornalistas sedutoras, conspiradores misteriosos e diálogos que parecem gerados por uma inteligência artificial treinada exclusivamente em grupos de WhatsApp de tiozão. Em determinado momento, Bolsonaro responde a um repórter: “Boatos são como peidos.”