
O senador Flávio Bolsonaro conseguiu na tarde desta terça-feira (26) aquilo que parecia ser o principal objetivo de sua viagem aos Estados Unidos: um retrato ao lado do presidente norte-americano Donald Trump.
A agenda, no entanto, esteve longe de representar uma reunião diplomática robusta ou um encontro político de grande densidade. Segundo relatos de jornalistas brasileiros em Washington, a passagem dos irmãos Bolsonaro pela Casa Branca foi extremamente rápida.
A correspondente da GloboNews Raquel Krähenbühl descreveu a sequência de forma quase burocrática: entrada de Flávio e Eduardo Bolsonaro, entrega de documentos a assessores, registro de imagens e saída. Já o correspondente da BandNews, Eduardo Barão, afirmou que toda a agenda teria levado aproximadamente dez minutos.
O registro foi feito dentro principal gabinete presidencial. Num outro clique, aparecem o lobista Paulo Figueiredo e seu comparsa Eduardo.
Trata-se de uma tentativa de mudar de assunto. Flávio atravessa uma crise após a repercussão de sua relação íntima com o banqueiro Daniel Vorcaro, tema que passou a dominar o noticiário político.
O episódio também expõe uma realidade conhecida nos bastidores da política americana: o acesso a Trump é um ativo financeiro, instrumento de marketing político e é comercializado. Pagou, levou.
Nos Estados Unidos, reuniões rápidas, fotos e momentos privados com o ex-presidente são associados a pacotes de arrecadação milionários destinados a financiar organizações conservadoras e campanhas republicanas. A manobra se chama photo op, contração de photo opportunity.
Um dos exemplos mais explícitos veio à tona recentemente através de um e-mail obtido pela newsletter Popular Information, no Substack. Empresários e grandes doadores conservadores receberam uma proposta para participar de uma experiência VIP com Trump mediante doação de US$ 500 mil ao comitê político da organização de extrema-direita Turning Point USA, TPUSA.
O pacote colocava preço na fotografia agendada para 17 de abril.
O TPUSA foi fundada pelo ativista fascista Charlie Kirk, assassinado durante uma palestra na Universidade do Vale de Utah, em Orem, em novembro. Hoje quem toca é a viúva Erika. O ex-presidente Jair Bolsonaro participou, em fevereiro de 2023, do evento “Power to the People” (“Poder ao Povo”) em Miami, organizado pelo grupo. Foi saudado por Kirk como um “lutador contra o marxismo”.

Segundo o convite obtido pelo Popular Information, os participantes teriam direito a voo fretado até Phoenix, no Arizona, hospedagem, acesso especial ao comício intitulado “Build the Red Wall” (“Construa a Parede Vermelha”), tour privado pela sede da organização — e, principalmente, um encontro reservado com Trump seguido por uma sessão de fotos.
“Essa experiência incluirá participação em uma breve conversa com o presidente, seguida por uma oportunidade de fotografia”, dizia o e-mail enviado pelo executivo de relações públicas Sinan Kanatsiz.
Embora o evento de Trump em Phoenix fosse aberto gratuitamente ao público, o verdadeiro produto vendido nos bastidores era o acesso exclusivo ao presidente. O mesmo que se passou com Flávio e seu bando.
O ecossistema trumpista transformou esse tipo de acesso em produto de luxo. De acordo com o Popular Information, a oferta circulava de forma reservada entre empresários e aliados políticos selecionados.
No rodapé do convite havia inclusive um aviso em letras maiúsculas: “ESTE E-MAIL É APENAS PARA USO DO DESTINATÁRIO E NÃO DEVE SER COMPARTILHADO — CONFIDENCIAL”.
Trump também vende encontros e jantares em sua propriedade em Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Flórida. Segundo o site da revista Wired, líderes empresariais podem garantir um jantar individual com Trump e uma foto pelo valor de US$ 5 milhões.
Convites obtidos pelo site revelam que, em um jantar à luz de velas realizado recentemente, os convidados foram solicitados a investir US$ 1 milhão para reservar um lugar. O texto informava: “Você está convidado para um jantar à luz de velas com o convidado especial, presidente Donald J. Trump. Detalhes adicionais serão fornecidos após RSVP. Os lugares serão preenchidos por ordem de confirmação. Espaço muito limitado. US$ 1.000.000 por pessoa.”
O esquema ainda esclarecia que Trump participaria do evento apenas como palestrante e não estaria solicitando fundos ou doações. O convite trazia o cabeçalho “MAGA INC.”, referência ao Super PAC Make America Great Again Inc, que apoiou a campanha presidencial de Trump em 2024, arrecadando mais de US$ 400 milhões no ano anterior.
Às vezes, a photo op acontece de forma mais prosaica. O biógrafo da família real britânica Robert Hardman se reuniu com Trump no Salão Oval durante a visita de quatro dias do rei Charles e da rainha Camilla aos EUA. No encontro, Hardman presenteou Trump com uma cópia de sua biografia sobre a falecida rainha Elizabeth II, baseada em entrevistas que ele realizou com o próprio presidente, admirador de longa data daquela turma.
Durante a conversa privada, Hardman pediu a opinião de Trump sobre gente como Kate Middleton, Meghan Markle, o príncipe Harry e o príncipe William. Depois do encontro, Trump posou para um retrato e recomendou o livro em suas redes, avisando que ele poderia ser comprado na Amazon. Nem isso Flávio ganhou.

Today is publication day for US edition of Elizabeth II. Generous words from the White House. President Trump was the last State Visitor of her record reign – and spoke to me at length for the book. @Pegasus_Books @WhiteHouse @panmacmillan @GeorginaCapel #Queenelizabeth #royal pic.twitter.com/4DMoRbDdFe
— Robert Hardman (@hardmanr) May 19, 2026