
O Departamento de Estado dos Estados Unidos decidiu classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como “terroristas globais especialmente designados” e também como “organizações terroristas estrangeiras”. A medida, anunciada pelo governo Donald Trump, passa a valer em 5 de junho e amplia o alcance de sanções, bloqueios financeiros e ações criminais contra pessoas e empresas acusadas de apoiar as facções.
A decisão coloca as organizações brasileiras em patamar jurídico semelhante ao de grupos que já foram alvo de ofensivas de Washington na América Latina, como os cartéis de Sinaloa e Jalisco Nova Geração, no México, e o Tren de Aragua, associado à Venezuela. O histórico recente mostra que a classificação de terrorismo pode anteceder medidas de inteligência, pressão diplomática e ações de força na região.
Os ataques na Venezuela
Em território venezuelano, a escalada estadunidense teve como base a acusação de que o governo de Nicolás Maduro mantinha vínculos com redes de narcotráfico e grupos armados. Antes da operação em Caracas, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos já havia indiciado Maduro por “narcoterrorismo”, citando o fictícil “Cartel de los Soles” como principal facção responsável pelo tráfico de drogas.
No segundo semestre de 2025, as forças militares dos EUA executaram dezenas de pessoas em pequenas embarcações sob alegação de atacar traficantes em alto mar. Nenhuma das vítimas foi confirmada como “narcoterrorista” em ação na costa venezuelana.
BREAKING: President Trump announces the U.S. “conducted a SECOND Kinetic Strike against… narcoterrorists from Venezuela.” pic.twitter.com/rADRlaJPTE
— Faytuks Network (@FaytuksNetwork) September 15, 2025
A ofensiva culminou, em janeiro de 2026, no sequestro de Maduro por forças estadunidenses em Caracas. A justificativa política apresentada por Washington foi construída a partir do enquadramento do regime venezuelano como ameaça transnacional ligada ao narcotráfico. Após a ação, Maduro foi levado aos Estados Unidos para responder a acusações criminais.
“Sob minhas ordens, as Forças Armadas dos Estados Unidos conduziram uma operação militar extraordinária na capital da Venezuela, empregando um poderio militar americano esmagador”, declarou Donald Trump, em pronunciamento em Mar-a-Lago, na Flórida, após a captura do líder venezuelano. No entanto, dias depois, o governo dos EUA reconheceu que não existe uma organização criminosa chamada “Cartel de los Soles”.
Ações no México
No México, a classificação de cartéis como organizações terroristas estrangeiras abriu espaço para uma ofensiva que combinou pressão política, cooperação com forças locais e ações de inteligência. Os cartéis de Sinaloa, Jalisco Nova Geração e a Nova Família Michoacana passaram a ser tratados por Washington dentro da lógica de combate ao terrorismo.
Após a morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, então líder do Cartel Jalisco Nova Geração, Trump afirmou que o México “precisava intensificar esforços” contra o crime organizado. A operação foi conduzida por forças especiais mexicanas, mas o governo de Cláudia Sheinbaum confirmou que houve uso de informações estratégicas repassadas pelos Estados Unidos.
A imprensa estadunidense também relatou uma atuação de bastidores da CIA em solo mexicano desde 2025. Segundo essas informações, as ações teriam como foco lideranças dos cartéis, redes financeiras e estruturas logísticas, em modelo inspirado em operações antiterrorismo.
No caso brasileiro, o governo Lula criticou a decisão dos Estados Unidos e apontou risco à soberania nacional. A avaliação em Brasília é que a classificação pode gerar efeitos sobre empresas, bancos e setores econômicos que operem em áreas sob influência do crime organizado, além de ampliar a pressão diplomática sobre o país.