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Sakamoto: Vorcaro comprou quantos políticos com dinheiro sujo?

Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL

Uma organização criminosa tinha um sicário para “moer” na porrada adversários e desafetos, roubava bilhões dos cofres públicos em esquemas com governos estaduais, lavava dinheiro com ocultação de bens obtidos de forma ilícita, comprava políticos com mesadas multimilionárias e doações cinematográficas, dava festas oferecendo mulheres para ganhar o afeto dos aliados, punia jornalistas e servidores públicos que ousassem se insurgir contra ela e tinha líderes que ostentavam um luxo pra lá de cafona. PCC? CV? FDN? Não. Família Vorcaro.

E, como toda organização criminosa de caráter mafioso, ela se imbricava em outras. A Polícia Federal investiga fundos de investimento e gestoras financeiras ligadas ao Banco Master que teriam sido utilizados em esquemas de triangulação e ocultação de cascalho envolvendo o Primeiro Comando da Capital. Mas os políticos envolvidos na teia de Vorcaro não o chamam de terrorista. Pelo contrário, o tratam como “irmão”.

A Polícia Federal aponta que o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, recebeu ao menos R$ 6 milhões de mesadas do mafioso entre 2024 e 2025. O ex-banqueiro, que o chamava de “amigo”, também bancou diárias de hotéis de luxo e viagens à Europa e aos Estados Unidos. Nessa época, outro senador, Flávio Bolsonaro (PL), amigo de Nogueira, pediu R$ 134 milhões a Vorcaro, recebendo R$ 61 milhões, segundo ele, para um filme sobre Jair. Disse que não sabia de nada que o desabonasse. É um caso raro de alguém que não saiba dar um Google.

A Polícia Federal foi além do valor da mesada a Ciro Nogueira e desvendou a engenharia financeira por trás dela. Uma rede de empresas ligadas ao senador teria utilizado familiares, servidores públicos e até beneficiários de programas sociais para esconder os recursos ilícitos. O dinheiro de Vorcaro entraria pela BRGD, empresa controlada por parentes do ex-banqueiro, passava por uma fintech chamada PJBank e desaguava nas empresas da família Nogueira, que misturavam os aportes ilícitos com os recursos legítimos das companhias e depois os redistribuíam dentro do clã do senador.

Entre os instrumentos usados para ocultar o fluxo, havia servidores públicos de baixa renda que transferiram valores incompatíveis com seus salários. Um deles recebia R$ 2.000 mensais, mas movimentou R$ 90.000 para a empresa do senador em um ano. Outro, que chegou a receber auxílio emergencial durante a pandemia, pagou R$ 143.000 à empresa no mesmo período. Laranjas, na linguagem da PF. Fantasmas a serviço de uma organização que operava com a sofisticação de um banco e a brutalidade de uma facção.

O banqueiro Daniel Vorcaro e o senador Ciro Nogueira. Foto: reprodução

Porque a porrada também estava lá como elemento dissuasório. Em fevereiro de 2025, Vorcaro enviou ao seu homem de confiança, conhecido como Sicário, o telefone e o nome de uma mulher, empregada de uma atriz com quem ele teve uma relação, com a ordem de “moer essa vagabunda”. Sicário integrava o núcleo conhecido como “A Turma”, estrutura montada para monitorar e pressionar pessoas consideradas adversárias do banqueiro ou ligadas às apurações sobre o banco. Ele não chegou a depor. Logo após ser preso durante uma operação da PF, morreu na cela.

Quantos políticos foram comprados? A resposta honesta é: ainda não sabemos. Vorcaro se nega a entregar os nomes dos amigos, na torcida de que alguém saia em seu resgate, seja no STF, seja em um possível futuro governo Flávio Bolsonaro. A situação dele ficou mais difícil ontem, quando a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal decidiu manter presos Henrique Vorcaro e Felipe Vorcaro, pai e primo, respectivamente. Isso foi uma sinalização de que a própria liberdade é algo distante. E, para piorar, ele deve sair da carceragem da PF e voltar para a Papudinha.

Enquanto não fala, seus celulares continuam contando segredos à Polícia Federal. Muita gente em partidos, como o União Brasil, federado ao PP, e o PL está com os cabelos em pé. Foram muitos os acordos que colocaram os caixas de previdência estaduais de joelhos para o Master.

Daniel Vorcaro aposta no silêncio e na lealdade aos aliados. Mas a lealdade, no mundo do crime, tem prazo de validade. E o prazo costuma vencer na hora em que a porta da cela se fecha.

O DCM recebeu a seguinte nota em 22 de junho:

“A PJBank Pagamentos S.A. esclarece que opera em plena conformidade com a regulação do Banco Central do Brasil. A instituição atua no âmbito do Sistema de Pagamentos Brasileiro, prestando serviços auxiliares de meios de pagamento voltados primariamente ao mercado condominial e imobiliário. Nessa condição, a companhia processa boletos de cobrança e realiza repasses de valores oriundos de operações de locação, administração condominial e demais transações típicas desses segmentos, figurando como mera intermediadora no fluxo financeiro entre pagador e beneficiário final.
A empresa vinculada ao senador fez uso da plataforma da PJBank exclusivamente para liquidar obrigações de pagamento e repasses de locação — operações de natureza ordinária, compatíveis com o objeto social de empresas que atuam no mercado imobiliário, e idênticas às realizadas por milhares de outros clientes credenciados.
Em nenhum momento a PJBank foi origem, destinatária ou beneficiária dos valores descritos, tampouco detinha conhecimento ou ciência sobre a destinação final dos recursos após a liquidação das obrigações de pagamento intermediadas.
Finalmente, a PJBank informa que, em dezembro de 2023, descredenciou a empresa identificada como pertencente ao entorno do senador Ciro Nogueira, após sua identificação como cliente vinculado a Pessoa Exposta Politicamente (PEP). Tal medida foi adotada por prática interna e demonstra, mais uma vez, os altos padrões de compliance e governança da PJBank.”