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O dia que Vorcaro surtou e mandou capangas caçar drone e cachorro perdido

Daniel Vorcaro, ex-CEO do Banco Master. Foto: reprodução

A Polícia Federal apontou que o grupo “A Turma”, descrito como uma espécie de milícia particular de Daniel Vorcaro, monitorava, intimidava e perseguia pessoas que contrariavam o dono do Banco Master, mesmo quando não havia ameaça concreta contra ele. Um dos episódios ocorreu em março de 2024, após um drone sobrevoar a propriedade do banqueiro no condomínio Lagoa do Miguelão, em Nova Lima, em Minas Gerais.

Segundo as investigações, Vorcaro acionou comparsas para identificar o responsável pelo equipamento. Após uma apuração no local, o grupo descobriu que o drone era usado por um morador da região para tentar encontrar um cachorro vira-lata perdido.

O caso veio à tona depois que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), levantou o sigilo de dois processos relacionados à investigação sobre suspeitas de corrupção e fraude bilionária no Banco Master. A decisão ocorreu na terça-feira (16), antes do julgamento que confirmou as prisões de Henrique e Felipe Vorcaro, pai e primo do banqueiro.

“Precisando [de] ajuda sua. Tem um drone filmando minha casa no Miguelão. Tinha que mandar alguém lá”, escreveu Vorcaro em 26 de março de 2024 a Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário” e apontado como um de seus operadores, como mostra um documento obtido pelo Globo.

De acordo com a PF, Mourão recebia R$ 1 milhão por mês para realizar atividades ilícitas para o banqueiro, como obter acesso a investigações sigilosas, intimidar adversários, planejar emboscadas e ocultar informações desfavoráveis na internet.

“Estou mandando agora lá a turma e [para] apreender esse drone. Quer que vá de viatura? Ou descaracterizada?”, questionou Mourão. Ele cometeu suicídio em uma cela da Superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais em março deste ano, após ser preso em nova fase da Operação Compliance Zero.

“Acho que viatura melhor. Que aí quem fez ficará com medo, se não conseguir pegar”, respondeu Vorcaro.

O grupo “A Turma” era formado por seis policiais e liderado pelo policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, escalado para verificar a situação no condomínio. Segundo a PF, os integrantes obtinham dados de inquéritos e processos sigilosos, mapeavam informações de pessoas físicas e jurídicas em sistemas restritos e realizavam ações de intimidação contra pessoas que desagradavam o chefe da organização criminosa.

Luiz Phillipi Mourão, o Sicário de Vorcaro. Foto: reprodução

Nas conversas, Mourão afirmou que faria boletim de ocorrência em uma delegacia de crimes contra o patrimônio e providenciaria um aparelho anti-drone para a casa de Vorcaro. O banqueiro demonstrou receio: “Não sei se chama mais atenção isso não? Tô em dúvida”, escreveu.

“No caso é invasão de privacidade. Mas você quem manda”, respondeu Mourão.

Dez dias depois, em 5 de abril, o drone voltou a sobrevoar a região. Marilson sugeriu verificar quem trabalhava no imóvel de Vorcaro. “É bom a gente dar uma levantada pra saber quem é quem que tá lá em loco, né?”, disse em áudio.

O operador foi identificado como o produtor musical Elias Martins, que procurava o cachorro Pitoco. “Eu entrei em contato com o Elias, conversei com ele, expliquei com ele que não poderia estar usando o drone naquela região, que os moradores estavam se sentindo incomodados e que não seria uma boa ideia ele estar com o drone ali”, relatou Marilson. “Ele me prometeu que não ia mais usar”.

Mourão enviou a Vorcaro o panfleto da busca: “Pitoco perdido – Vale do Sol. É muito doce, tem 10 anos, mas está com medo e fugindo cada vez mais longe”.

Elias disse ter ficado surpreso ao saber que foi abordado por pessoas ligadas a Vorcaro. “Essa pessoa que falou comigo foi um pouco incisiva, mas jamais imaginava, nem sabia que o Vorcaro morava aqui perto”, afirmou. “A gente só estava sobrevoando com o drone no limite da BR, não estava entrando na área do condomínio, mas o pessoal de condomínio é complicado mesmo”.

Pitoco foi encontrado no dia seguinte em um condomínio da região. “Agora vou pensar duas vezes antes de voar um drone para procurar um cão perdido”, disse Elias.