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Justiça condena igreja do pastor Valdemiro por demitir vítima de assédio

Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial do Poder de Deus
Pastor Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial do Poder de Deus. Foto: Reprodução

A Justiça do Trabalho condenou a Igreja Mundial do Poder de Deus, liderada pelo pastor Valdemiro Santiago, em um caso de assédio moral contra uma ex-vocalista que cantava nos cultos da denominação. O Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT-1) reconheceu que a funcionária sofreu ofensas de um colega e acabou demitida após relatar o problema.

A trabalhadora, identificada como Fernanda, entrou na igreja em 2014, com carteira assinada, para cantar acompanhada por banda e outros vocalistas. A partir de 2019, ela passou a relatar hostilidades de outro integrante do grupo, que teria usado termos misóginos e de baixo calão contra ela diante de fiéis, pastores e colegas.

Fernanda e o marido procuraram gestores da igreja para denunciar as ofensas. Em novembro de 2020, o músico apontado como assediador acabou transferido para outra unidade, mas voltou à banda em fevereiro de 2022, após a chegada de um novo bispo. Em junho daquele ano, a vocalista passou a trabalhar em unidades distantes de casa e, dias depois, ela e o marido foram demitidos; o colega permaneceu na banda.

Um áudio gravado pelo marido de Fernanda pesou na decisão do desembargador Rildo Albuquerque Mousinho de Brito. Na conversa, o bispo responsável pela igreja discutia a possibilidade de manter a vocalista na mesma unidade e transferir apenas o marido. “Como é que o bispo já sabe da situação, do pé de guerra que está lá por causa do rapaz, aí eu mando você para um lugar e vou deixar ela aqui? É a mesma coisa de eu dizer assim: pega gasolina e bota fogo…”, disse o religioso.

Valdemiro e Bolsonaro – Foto: Reprodução

Decisão citou áudio, testemunhas e dispensa discriminatória

Para o desembargador, o áudio constituiu “prova cabal do nexo entre a violência moral sofrida e a ruptura do vínculo [empregatício]”. Na sentença, ele afirmou que a igreja tentou “resolver” a instabilidade “mediante a eliminação do elo mais frágil: a vítima”. A indenização por danos morais, fixada em R$ 5 mil na primeira instância, subiu para R$ 20 mil no TRT-1.

A igreja também terá de pagar à ex-funcionária o dobro da remuneração que ela receberia se tivesse permanecido empregada até junho de 2024, quando acionou a Justiça. O valor chega a aproximadamente R$ 150 mil. Outros pedidos feitos por Fernanda, como questionamentos sobre verbas rescisórias, foram rejeitados pelo desembargador.

A decisão levou em conta três testemunhas. Um pastor declarou ter presenciado o músico chamando Fernanda de “puta”, “gostosa” e “vadia” durante um ensaio e disse que sua omissão contribuiu para a “impunidade”. Uma frequentadora da igreja afirmou ter ouvido o homem dizer que a vocalista deixou a banda porque estava “se prostituindo”. Outra testemunha, levada pelo acusado, disse não ter ouvido ofensas, mas reconheceu que havia “divergências” entre os dois.

A Igreja Mundial contestou a condenação e afirmou que não tinha conhecimento das hostilidades praticadas pelo funcionário. A denominação também disse que a conversa gravada pelo marido de Fernanda refletia “apenas uma gestão administrativa de conflitos interpessoais, e não uma política discriminatória”. Em nota, a igreja declarou que vai recorrer às instâncias superiores e sustentou que não tolera assédio, discriminação ou preconceito.