
Anthony Fauci, ex-diretor do principal órgão de doenças infecciosas dos Estados Unidos, invocou a Quinta Emenda e se recusou a responder mais de cem perguntas durante uma audiência no Senado nesta quarta-feira (29). O dispositivo constitucional protege qualquer pessoa de ser obrigada a produzir declarações que possam ser usadas para incriminá-la.
Fauci compareceu após ser intimado pela Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais, presidida pelo republicano Rand Paul. Em sua declaração inicial, o infectologista afirmou que a audiência tinha como objetivo fazê-lo dizer algo que pudesse sustentar as promessas públicas do senador de colocá-lo “atrás das grades”.
A convocação ocorreu depois que Paul divulgou mais de mil páginas de anotações pessoais mantidas por Fauci entre dezembro de 2019 e dezembro de 2022. Os registros incluem reflexões sobre os primeiros meses da pandemia, sua relação turbulenta com Donald Trump, a origem do coronavírus e a projeção mundial que o médico alcançou durante a crise sanitária.
Os republicanos utilizaram trechos do material para acusar Fauci de ter ocultado informações sobre pesquisas financiadas pelos Estados Unidos na China e sobre a possibilidade de o vírus ter escapado de um laboratório em Wuhan. O médico já classificou as acusações como absurdas e sustenta que as evidências científicas favorecem uma origem natural, embora afirme considerar ambas as hipóteses.
🚨URGENTE – Dr. Fauci invoca a Quinta Emenda (direito de não se autoincriminar), recusando-se categoricamente a responder a todas e quaisquer perguntas do Senado dos EUA pic.twitter.com/hQdK3IISjD
— SPACE LIBERDADE (@NewsLiberdade) July 29, 2026
A sessão durou cerca de três horas e foi marcada por provocações e tumulto. O senador Josh Hawley chegou a perguntar a Fauci qual era o dia da semana e a cor de sua gravata. Ele recebeu a mesma resposta dada às demais perguntas: sob orientação de seus advogados, o ex-funcionário exerceria o direito previsto na Quinta Emenda. Um dos representantes legais do médico acabou retirado da sala por ordem de Rand Paul depois de tentar falar durante a audiência.
Paul anunciou que a comissão votará na próxima semana se Fauci deve ser declarado em desacato ao Congresso. Os republicanos possuem maioria de oito votos contra sete no colegiado. O presidente da comissão reconheceu, porém, que caberá aos tribunais decidir se o infectologista poderia ser obrigado a responder diante das circunstâncias jurídicas do caso.
Antes de deixar a Presidência, Joe Biden concedeu a Fauci um perdão preventivo relacionado aos atos oficiais praticados desde 2014. A defesa argumenta que a medida não impede novas acusações por declarações prestadas posteriormente, como eventual perjúrio durante a própria audiência. Os democratas classificaram a convocação como uma “caça às bruxas”, enquanto Trump voltou a atacar Fauci e afirmou que o médico não ajudou o país durante a pandemia, que matou mais de um milhão de estadunidenses.
Vazamentos
O senador republicano Rand Paul divulgou milhares de páginas do diário pessoal de Anthony Fauci, ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e um dos principais responsáveis pela resposta dos Estados Unidos à Covid-19. O material foi tornado público antes de uma audiência no Senado sobre a atuação do médico durante a pandemia e as possíveis origens do vírus. Segundo a CNN, Fauci invocou a Quinta Emenda, que o protege contra a autoincriminação.
As anotações revelam uma relação cada vez mais tensa com Donald Trump. Fauci relata que, no primeiro encontro, em janeiro de 2020, o então presidente o tratou com respeito e fez elogios, mas passou depois a minimizar a gravidade da pandemia. O cientista registrou críticas aos “discursos desconexos” e ao comportamento “errático” de Trump, além de classificá-lo como “um adolescente detestável”. Também demonstrou grande preocupação com sua exposição na imprensa e anotou detalhadamente entrevistas e aparições na televisão.
O diário mostra ainda que Fauci discutiu desde o início diferentes hipóteses para a origem do coronavírus. Ele registrou conversas com cientistas que consideravam a possibilidade de manipulação e liberação acidental em laboratório, embora tenha defendido publicamente que a origem natural era mais provável. As anotações indicam que não havia consenso entre especialistas e que os primeiros casos conhecidos não estavam necessariamente ligados ao mercado de animais de Wuhan, que teria funcionado como amplificador do surto, e não como sua fonte inicial.