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Sakamoto: Flávio parece determinado a perder mais votos de mulheres

Flávio Bolsonaro (PL) ao lado do deputado federal Alfredo Gaspar, anunciado como vice em sua chapa presidencial. Foto: Vittor Sales/Divulgação

Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL

Com maior rejeição entre as mulheres, Flávio Bolsonaro dobrou a aposta e, depois, dobrou de novo. Tudo no mesmo dia.

Ungiu, ontem, como vice em sua chapa à Presidência da República, um homem que é alvo de um pedido da Polícia Federal para a abertura de investigação sobre estupro de uma menina. Como Alfredo Gaspar (PL-AL) foi relator da CPMI do INSS, o senador crê que isso pode ser útil à sua campanha, esquecendo que, além da suspeita, o deputado carrega também investigações sobre desvios de emendas e um histórico de truculência.

Depois, Flávio disse que pôs filhas no mundo apenas para cuidarem dele no futuro. “Muitas vezes, na grande parte das vezes, quem tem que tomar conta dos idosos são as mulheres. Eu fiz duas filhas exatamente para isso. Quando eu ficar velhinho, eu vou ter quem vai tomar conta de mim porque as mulheres são assim: são família, são coração, são sentimento, são sensibilidade”, afirmou.

Mulheres são tudo isso, mas também exploradas através do discurso de que são família, são coração, são sentimento, são sensibilidade.

A frase não soaria estranha há 60 anos, mas hoje explica a dificuldade dele junto ao público feminino. E seu sucesso com uma parte dos homens.

Infelizmente, a responsabilidade fica nas mãos das mulheres, que precisam encarar jornadas duplas como trabalhadoras e cuidadoras, tanto de idosos quanto de crianças. Homens conservadores, muitos dos quais apoiam o senador, defendem a manutenção desse modelo, tirando o seu da reta. A declaração de Flávio, que está sendo amenizada por seus aliados como “brincadeira” ou “descontextualizada”, serve de legitimação ao pensamento dessa turma.

Talvez a campanha aposte que o antipetismo feminino será maior que o respeito próprio e a autoestima das mulheres. Ou mobilizar de tal forma o machismo radical que nos define compensará qualquer crítica.

Mas, a princípio, o senador precisa ganhar votos de mulheres, principalmente após o vídeo-bomba de Michelle Bolsonaro apontando que o enteado a maltratou, humilhou e disse que ela não entendia de política. Essa justificativa é ouvida por muitas no dia a dia para que deixem a arena pública para os homens. A elas caberia, sob esse ponto de vista neandertal, o espaço privado, o mesmo do cuidado de crianças e idosos.

Claro que a ex-primeira-dama não queria prestigiar o evento de lançamento do vice na chapa do enteado. Mas, considerando todo o cenário montado, não deixa de ter uma ironia fina a desculpa entregue por sua amiga, a senadora Damares Alves, para a ausência: “Michelle não veio porque está fazendo comida para o marido”.