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“Meu bebê foi tirado dos meus braços”: mãe reencontra filho após mais de 60 anos

A inglesa Jan Doyle e o filho mais velho, Jon. Foto: Divulgação

A inglesa Jan Doyle, de 80 anos, reencontrou o filho mais de seis décadas depois de ter sido obrigada a entregá-lo para adoção aos 16 anos, em 1963. Ela integra o grupo de mulheres separadas de seus bebês na Inglaterra e no País de Gales por terem engravidado fora do casamento. Com informações do O GLOBO.

Jan afirmou que sua família tentou esconder a gravidez por medo da reação de vizinhos e parentes. “Fizeram com que eu me sentisse uma aberração e uma pária”, disse. Os pais chegaram a dizer que ela havia sofrido um colapso nervoso para justificar seu afastamento do convívio social.

A adolescente foi enviada a uma das chamadas casas para mães e bebês, instituições que recebiam jovens grávidas e, em muitos casos, eram administradas pela Igreja Anglicana. Jan dividia um dormitório com outras meninas, tinha uma única gaveta para seus pertences e realizava tarefas domésticas, incluindo esfregar o chão de joelhos na véspera do parto.

Depois do nascimento do menino, em dezembro, ela ficou com ele entre seis e oito semanas. Em seguida, viajou quase duas horas com a mãe e uma assistente de bem-estar materno até uma casa para crianças, onde o bebê foi retirado de seus braços. Jan pediu uma fotografia e uma despedida, mas sua mãe recusou as duas solicitações. “Deixá-lo foi a pior coisa”, relatou.

Jan Doyle comemora aniversário de 80 anos com a família no Reino Unido. Foto: Divulgação

Jan contou que viu o filho pela última vez ainda bebê e passou mais de 60 anos sem notícias dele. Ela o chamava de David, mas ele recebeu o nome de John. Durante esse período, teve outros dois filhos e enfrentou uma depressão pós-parto grave, que associou à separação forçada.

Em 2024, o órgão britânico responsável por registros e passaportes avisou Jan de que alguém buscava contato com ela. O filho havia iniciado o procedimento para localizá-la, e os dois trocaram mensagens por e-mail. Dez dias depois, encontraram-se em um hotel próximo à casa dela.

“Quando vi aquele homem caminhando pelo hotel, pensei: ‘É o meu filho’”, afirmou. Jan soube que ele havia crescido em uma família adotiva que já criava quatro crianças e que, segundo ela, ofereceu cuidado e afeto. Ela disse que gostaria de ter agradecido à mãe adotiva, que morreu aos 92 anos.

O caso de Jan faz parte de um sistema que atingiu cerca de 185 mil bebês nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial. Em 2022, o Comitê Conjunto de Direitos Humanos do Parlamento Britânico atribuiu ao Estado responsabilidade “pela dor e o sofrimento causados por instituições públicas e funcionários estatais que forçaram mães a adoções indesejadas”.

Em junho, o governo britânico e a Igreja Anglicana apresentaram desculpas às famílias. Keir Starmer e a arcebispa de Canterbury, Sarah Mullaly, manifestaram-se oficialmente sobre as adoções forçadas. Jan, que testemunhou no Parlamento em 2022, disse que uma compensação financeira não recuperaria os anos perdidos.

Ela criticou a resposta da Igreja Anglicana: “Não diria que perdi minha fé em Deus, mas acho que perdi a fé na Igreja Anglicana.” Sobre o pedido de desculpas de Starmer, afirmou ter percebido compromisso e disse que agora tem uma fotografia com seus três filhos, algo que jamais imaginou ter.