
Juros a 14% ao ano, crédito caro e o endividamento das famílias brasileiras ajudam a explicar a sequência de pedidos de recuperação judicial de grandes varejistas, como Casas Bahia, Lojas Marabraz, Zinzane, Americanas, o grupo Toky (dono de Mobly e Tok&Stok) e a CVLB, responsável por Casa & Video e Le Biscuit.
Entre janeiro e abril de 2026, 268 pedidos de recuperação judicial envolveram 602 empresas, conforme dados compilados pela Serasa Experian. Em 2025, foram 977 processos, o maior número da série histórica.
Para Ana Paula Tozzi, CEO da consultoria de varejo AGR, a conjuntura afeta todo o setor, mas fragilidades administrativas e operacionais tornam algumas empresas mais vulneráveis. “A margem de lucro no varejo é muito apertada. É preciso ter eficiência operacional e comercial para seguir em frente”, afirmou ao jornal O Globo.
A especialista avaliou que negócios com conflitos ou problemas internos não sustentam a operação com a taxa de juros atual. “Se a empresa tem algum conflito ou fragilidade interna que compete com essa eficiência, ela só fica de pé com a taxa de juros a 5% ao ano, mas não no patamar atual”, disse.

Crédito caro afeta estoque, fornecedores e investimentos
A Selic saiu de 2% ao ano em agosto de 2020 e chegou a 15% em junho de 2025. O Banco Central iniciou a redução da taxa em março deste ano, mas os cortes somaram um ponto percentual até agora, mantendo os juros em 14% ao ano.
O período prolongado de juros elevados aumentou o custo das dívidas contratadas pelas empresas e encareceu novas linhas de financiamento. Com menos caixa e capital de giro, redes varejistas reduzem investimentos, fecham lojas e cortam postos de trabalho.
O problema pesa especialmente em atividades que precisam financiar estoques e manter pagamentos a fornecedores para preservar as vendas. Móveis, eletroeletrônicos e eletrodomésticos enfrentam exposição maior porque dependem de compras de valor mais alto e, muitas vezes, parceladas.
Do lado do consumidor, 82% das famílias tinham algum tipo de dívida em julho, segundo a Confederação Nacional do Comércio. Um quinto delas comprometia mais da metade do orçamento com débitos.
Tozzi citou ainda a concorrência com despesas como apostas esportivas e canetas emagrecedoras, mas afirmou que não há uma “crise generalizada” no varejo, já que empresas com operação mais eficiente continuam crescendo.