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A cobrança de propina que acabou em assassinato e atingiu a cúpula política do MA

Daniel Brandão, presidente afastado do Tribunal de Contas do Maranhão. Foto: Divulgação/TCE-MA

Uma suposta cobrança de propina ligada ao pagamento de R$ 778 mil a uma empresa de vigilância está no centro de uma investigação da Polícia Federal que passou a atingir diretamente a cúpula política do Maranhão. O caso ganhou nova dimensão após o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, afastar Daniel Brandão da presidência do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão. Sobrinho do governador Carlos Brandão (MDB), Daniel é citado em depoimentos relacionados ao assassinato de João Bosco Sobrinho Pereira, de 46 anos, morto com três tiros em 19 de agosto de 2022, no Edifício Tech Office, em São Luís. Gilbson Cutrim Junior confessou o homicídio e foi condenado, em dezembro de 2024, a 13 anos, um mês e 15 dias de prisão.

Segundo a denúncia do Ministério Público do Maranhão, Gilbson atirou contra Bosco às 16h26, após uma reunião convocada para discutir divergências sobre valores relacionados a uma empresa de vigilância. A companhia havia prestado serviços durante o governo Roseana Sarney, entre 2009 e 2014, e recebeu R$ 778 mil do governo estadual em 2022, quando Carlos Brandão já era governador e candidato à reeleição. A PF apura se parte desse montante seria destinada ao pagamento de propina. Em depoimento à Justiça maranhense, Gilbson afirmou que o acordo inicial previa repasse de 30% para Bosco e para o vereador de São Luís Beto Castro (Avante), mas que o parlamentar teria passado a exigir 50%. Ele alegou ainda que dívidas trabalhistas da empresa bloquearam parte do dinheiro e impediram o pagamento pretendido.

Dois dias antes do crime, segundo Gilbson, Bosco teria ameaçado cobrar o valor caso o repasse não fosse feito. Foi então que uma reunião passou a ser articulada para tentar resolver o impasse. Na versão apresentada originalmente à Justiça, Gilbson dizia que Beto Castro havia marcado o encontro e negava participação de Daniel Brandão no suposto esquema. Ele também sustentou que, durante a discussão, Bosco teria dito “vamos pegar o filho dele”. Gilbson afirmou ter “perdido o chão” ao ouvir a ameaça contra o filho, então com 9 anos, e disparado contra Bosco. Ele alegou que todos os tiros foram efetuados de frente.

O caso ganhou outro rumo quando Gilbson mudou parte dessa versão enquanto já cumpria pena. Em depoimento à Polícia Federal em 19 de fevereiro, ele afirmou que foi Daniel Brandão quem marcou a reunião. Segundo o relato, Daniel teria inicialmente sugerido o comitê eleitoral de Carlos Brandão, mas Gilbson disse ter recusado por temer uma emboscada, levando o encontro para o Tech Office. Na nova narrativa, Gilbson também declarou que Daniel teria dito, antes do crime: “ó, é para fazer do jeito que o tio [governador Carlos Brandão] disse”. Depois dos disparos, segundo ele, Daniel teria telefonado e ordenado: “cara, tu é doido! Apaga tudo. Some, some”. As acusações são investigadas pela PF e não representam conclusão definitiva sobre eventual participação de Daniel ou do governador no crime.

Gilbson também afirmou aos investigadores que seu vínculo com a família Brandão teria começado anos antes. A PF registra no pedido contra Daniel que a relação teria se iniciado em 2017, em tratativas sobre terras portuárias. No novo depoimento, o condenado declarou ainda ter participado de “negócios ilícitos” para a família e afirmou ter levado dinheiro ao governador no Palácio dos Leões. Carlos Brandão e Daniel Brandão negam qualquer envolvimento em esquema de corrupção.

Gilbson Junior, assassino confesso de João Bosco, durante julgamento, em dezembro de 2024. Foto: Reprodução/TJ-MA

Outra frente da investigação tenta esclarecer se houve uma tentativa de comprar o silêncio de Gilbson após o assassinato. Ele afirmou que a família Brandão teria financiado despesas jurídicas para mantê-lo em silêncio. A PF mapeou dois repasses de R$ 25 mil para recursos e outras providências processuais, R$ 100 mil destinados aos advogados que atuaram no Tribunal do Júri e R$ 30 mil pagos ao pai de Gilbson para contratar um profissional responsável por recorrer da decisão dos jurados. Segundo Gilbson, o acordo teria sido fechado diretamente com Daniel.

Os investigadores encontraram ainda mensagens no celular da mulher de Gilbson nas quais ela cobrava pagamentos que associava ao silêncio do marido. Em novembro de 2024, ela teria procurado um advogado apontado como representante de Daniel e cobrado uma solução, afirmando que, caso contrário, iria pessoalmente ao TCE. Com a piora da saúde de Gilbson no presídio, ela passou a temer que o marido pudesse ser envenenado e procurou o Ministério Público Federal. Em 2 de junho de 2025, a Justiça determinou a transferência dele para o presídio federal de Brasília, onde atualmente cumpre pena em regime semiaberto.

A atuação das forças de segurança do Maranhão também passou a ser questionada. A Polícia Civil identificou nas imagens do circuito interno do Edifício Tech Office João Bosco, Gilbson e Beto Castro, mas não apontou Daniel Brandão, apesar de sua fisionomia, cargo e características físicas serem conhecidas. A PF classificou essa ausência como relevante e afirmou ver indícios de que órgãos de segurança estaduais podem ter sido usados para blindar a identificação do sobrinho do governador. Flávio Dino citou essa divergência ao determinar o afastamento de Daniel da presidência do TCE-MA.

Outro episódio reforçou as suspeitas de tentativa de interferência na apuração. Raimundo Cutrim, então secretário de Assuntos Legislativos do governo Brandão e primo do pai de Gilbson, foi gravado em junho pedindo que o familiar mudasse a versão sobre a participação de Daniel no suposto esquema. Em razão desse áudio, Flávio Dino decretou a prisão de Raimundo em julho. A PF considera o episódio mais um elemento na apuração de possíveis ações para alterar ou controlar relatos relacionados ao caso.

Daniel Brandão declarou ser inocente, afirmou que cumprirá a decisão do Supremo e disse que recorrerá pelos meios legais. Carlos Brandão também contesta a condução das investigações no STF e sustenta que, por ser governador, deveria ser investigado no Superior Tribunal de Justiça. A defesa afirma ainda que enfrenta dificuldades para acessar integralmente as apurações sigilosas e aponta suposta violação do juiz natural, do contraditório e da ampla defesa.

Na decisão, porém, Dino sustentou que o STF tem competência para analisar o caso porque as denúncias também mencionam autoridades com foro na Corte, como o senador Weverton Rocha (PDT) e o deputado federal Josimar de Maranhãozinho (PL), além de Carlos Brandão em sua condição pretérita de deputado federal.