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Sakamoto: nesta eleição, pense por conta própria e não siga o rebanho

Rebanho. Foto: History Channel Brasil

Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL

Você pode ser contra a política de Milei e adorar passear por Buenos Aires.

Você pode ver em Netanyahu um genocida e se divertir em um casamento judaico.

Você pode criticar atos terroristas do Hamas e defender que a poesia de Mahmoud Darwish tenha um país.

Você pode dizer que Trump é um perigo para o mundo e torcer pelos Knicks.

Você pode denunciar a violência dos aiatolás e amar cinema iraniano.

Você pode criticar a censura de Pequim e admirar o brilho de Shenzhen.

Você pode abominar a guerra de Putin e ser fascinado por literatura russa.

Você pode criticar o regime de Havana e admirar um bolero cubano.

Você pode condenar a ditadura saudita e se encantar com as paisagens de AlUla.

Você pode desprezar o autoritarismo de Erdogan e se perder nos bazares de Istambul.

Você pode questionar o nacionalismo de Modi e amar a gastronomia indiana.

Você pode condenar a repressão de Ortega e se emocionar com os textos de Rubén Darío.

Você pode rejeitar a mão de ferro de Bukele e se encantar com os vulcões de El Salvador.

Você pode condenar o revisionismo histórico japonês e reverenciar o cinema de Kurosawa.

Em suma, você pode separar as ações de um Estado ou de seus líderes da essência, da cultura e da humanidade do povo que ali vive. Não precisa da autorização de ninguém para isso.

Neste momento, aliás, há pessoas em todos esses países lutando para que seus governos tratem seres humanos com dignidade, muitas vezes colocando em risco sua própria vida. Resistência existe em todos os lugares.

A questão é se você está preparado para, de fato, pensar por contra própria, entendendo e navegando pelas contradições da vida e compreendendo que o ser humano é muito mais complexo do que duas caixinhas, ou está confortável demais em seguir o seu berrante favorito, que diz para onde ir.

Lula e Flávio Bolsonaro. Foto: Reprodução

A lembrança é importante. Estamos adentrando período eleitoral no Brasil, quando o processo de ultrapolarização contribui com a desumanização do outro. Em 2022, tivemos uma pilha de corpos decorrentes dessa violência política.

Em “Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal”, a filósofa Hannah Arendt conta a história da captura do carrasco Eichmann, na Argentina, por agentes israelenses, e seu consequente julgamento. Ela, judia e alemã, ficou presa em um campo de concentração antes de fugir para os EUA. Ao contrário da descrição de um demônio que todos esperavam em seus relatos, originalmente produzidos para a revista New Yorker, o que ela viu foi um funcionário público medíocre e carreirista, que não refletia sobre suas ações e atividades e que repetia clichês.

A autora não quis, com o texto, que acabou lhe rendendo ameaças na época, suavizar os resultados da ação de Eichmann, mas entendê-la em um contexto maior. Isso fez com que fosse atacada por quem queria a confirmação da encarnação da maldade ou da loucura. Ninguém nasce um monstro.

Líderes políticos, sociais ou religiosos afirmam que não criam monstros. Porém, se não são suas mãos que seguram a faca ou o revólver, é a sobreposição de seus argumentos e a escolha que fazem das palavras ao longo do tempo que distorce a visão de mundo de seus seguidores e torna o ato de esfaquear e atirar banal. Ou, melhor dizendo, “necessário”. Suas ações e regras redefinem, lentamente, o que é ética e esteticamente aceitável, visão que depois será consumida e praticada por terceiros. Estes acreditarão estarem fazendo o certo, quase em uma missão civilizatória ou divina.

É assim que o monstro político nasce: não de uma transformação súbita, mas da repetição cotidiana de palavras que retiram do outro sua humanidade. Primeiro, o adversário vira inimigo. Depois, ameaça existencial. Por fim, sua eliminação passa a ser tratada como justiça.

Durante a eleição, desconfie de quem oferece ódio ao diferente como gabarito de interpretação da realidade. Você não estará entendendo melhor o mundo, apenas se afastando dele.