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Ciro Gomes volta a defender Mossad para cuidar da segurança do Ceará. Por Miguel do Rosário

Ciro Gomes. Foto: Reprodução

Por Miguel do Rosário, publicado no Cafezinho

Em entrevista concedida hoje ao programa Jangadeiro Eleições, da BandNews FM, Ciro Gomes voltou a causar perplexidade ao apresentar a sua principal “solução” para a crise de segurança pública que atinge o Ceará. A proposta do candidato envolve entregar o treinamento da inteligência policial cearense ao Mossad, a agência de espionagem internacional do Estado de Israel.

Ao explicar como pretende montar a nova estrutura de inteligência, Ciro afirmou:

“Mil técnicos treinados pela capacitação do Mossad de Israel. Por que o Mossad? Porque eu sou sionista? Não. É porque é o melhor experimento de inteligência e de tecnologia, dado que eles vivem ali cercados.”

Segundo o candidato, a tarefa desses técnicos seria “em 90 dias, mapear a cabeça do crime organizado”.

A declaração ocorre no contexto em que Ciro Gomes se consolida como candidato ao governo do estado, rivalizando diretamente com o atual governador, Elmano de Freitas (PT). Ao detalhar como pretende combater as facções e mapear a estrutura do crime organizado, Ciro foi explícito ao invocar o serviço estrangeiro, uma retórica que vai muito além de um simples erro técnico de campanha.

Ao falar única e exclusivamente no Mossad, Ciro Gomes faz um aceno direto e calculado à sua nova base. Essa insistência causa verdadeiro entusiasmo entre setores do bolsonarismo, um movimento que nutre uma visão descolada da realidade e uma devoção cega ao Estado de Israel, ignorando as denúncias de práticas genocidas em Gaza.

Esse setor não tem nenhum compromisso ético com os direitos humanos.

Ao adotar esse discurso para agradar ao bolsonarismo, Ciro Gomes trai a sua própria história. E não é aceitável que o eleitor cearense trate uma eleição para governador como se ela pudesse prescindir de compromisso com questões democráticas tão fundamentais quanto essa.

Diante das críticas, os ciristas frequentemente tentam justificar essa guinada argumentando que o campo adversário também atrai figuras conservadoras. Há, contudo, uma diferença básica e gritante. Na base de apoio de Elmano de Freitas ou do presidente Lula, encontram-se ex-bolsonaristas, figuras políticas que fizeram o caminho oposto e romperam com o extremismo.

No caso de Ciro Gomes, a aliança é orgânica com o bolsonarismo raiz e convicto. Seus atuais aliados são extremistas que apoiaram ativamente os ataques golpistas de 8 de janeiro e que mantêm o negacionismo como bandeira constante.

Selo oficial do Mossad, o serviço secreto e agência de inteligência nacional de Israel. Foto: Reprodução

Um exemplo dessa radicalização é o deputado federal André Fernandes, aliado de primeira hora de Ciro no Ceará, que segue engajado na retórica antivacina ao reverberar postagens de Nikolas Ferreira.

Para além da perigosa sinalização ideológica e do flerte com o golpismo, a proposta de importar o treinamento da agência carrega um absurdo operacional grosseiro. O Mossad é um serviço de inteligência voltado exclusivamente para espionagem externa, sabotagem e operações clandestinas fora do território israelense.

A agência não possui nenhuma experiência ou mandato para lidar com criminalidade comum, policiamento urbano ou o combate ao narcotráfico varejista nas periferias. Tentar aplicar táticas de espionagem internacional no combate a facções locais é uma completa aberração técnica.

Ademais, trazer o Mossad significa importar a lógica de um aparato de segurança cujos métodos e figuras centrais expressam abertamente o desprezo pela vida e pelas leis internacionais. Trata-se da validação de uma estrutura incompatível com um Estado Democrático de Direito e com o respeito aos direitos humanos básicos.

Para se ter uma ideia do que representa esse aparato, o ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, integrante do gabinete de segurança do governo Netanyahu, defendeu no domingo, em entrevista ao podcast “8 de Outubro”, que o exército israelense execute “entre 30 e 40” palestinos por noite em Gaza.

Ben-Gvir acrescentou que a lista deveria ir além dos que representam ameaça imediata, porque “há gente lá que não merece viver” e que “nem sequer são pessoas”. É essa a lógica de Estado que Ciro Gomes propõe trazer para treinar a polícia cearense.

A proposta revela ainda pouco apreço pela soberania nacional. O Ceará e o Brasil têm experiência acumulada para enfrentar os próprios problemas de segurança, sem precisar recorrer a serviços secretos estrangeiros.

As polícias cearenses precisam de investimento, formação e inteligência de melhor qualidade. Isso se constrói aqui, com instituições brasileiras, e não terceirizando a segurança do estado ao Mossad.

Tudo isso evidencia uma postura de manipulação inaceitável. Por sua longa trajetória, Ciro tem pleno conhecimento da natureza do Mossad e sabe da total ineficácia dessa proposta para o cotidiano do Ceará.

No entanto, o candidato explora o fato de que a população cearense, acuada pela violência e muitas vezes exposta apenas à imagem glamorizada pela grande mídia, desconhece o real funcionamento dessas agências. Ao instrumentalizar o medo e a desinformação, Ciro Gomes age movido por ressentimento político, disposto a aliar-se aos setores mais retrógrados para disputar o poder a qualquer custo.