
Depois de mais de dois anos de negativas, as Forças Armadas de Israel reconheceram nesta quarta-feira (19) que seus soldados abriram fogo contra o carro em que estava Hind Rajab, menina palestina de 5 anos morta na Faixa de Gaza.
A nova versão contradiz diretamente a explicação apresentada pelos militares em 2024. Na ocasião, Israel sustentou que nenhuma tropa estava nas proximidades ou ao alcance de tiro do veículo. Agora, o Exército afirma que os soldados dispararam quando o carro se aproximou de sua posição.
Hind viajava com seis parentes pelo bairro de Tel al-Hawa, no norte de Gaza, em 29 de janeiro de 2024. Depois do ataque inicial, a menina permaneceu no interior do veículo, cercada pelos corpos de familiares, e conseguiu telefonar para o Crescente Vermelho Palestino.
Durante horas, ela implorou para que os socorristas fossem buscá-la. Uma ambulância com os paramédicos Yusuf al-Zeino e Ahmed al-Madhoun foi enviada ao local, mas também foi atingida. Israel reconheceu agora que um projétil foi disparado contra o veículo de resgate. Os corpos de Hind, de seus familiares e dos dois socorristas foram encontrados 12 dias depois.

Uma investigação da Forensic Architecture, baseada em imagens de satélite, registros sonoros e reconstrução tridimensional, situou um tanque a uma distância estimada entre 13 e 23 metros do automóvel. A análise concluiu que o atirador teria visão clara dos ocupantes, incluindo as crianças. As ligações de Hind transformaram o caso em um símbolo internacional e inspiraram o filme “A Voz de Hind Rajab”.
Segundo a Reuters, o mecanismo interno de apuração militar recomendou a abertura de uma investigação criminal sobre o episódio. Outra apuração examinará a morte de 15 trabalhadores de emergência e ajuda humanitária em março de 2025. Em contrapartida, o Exército não encontrou motivo para investigar criminalmente três outros casos, entre eles o ataque que matou sete integrantes da World Central Kitchen.

Organizações israelenses de direitos humanos questionam a eficácia dessas investigações. A Yesh Din afirma que apenas uma parcela mínima das apurações envolvendo mortes de palestinos resulta em denúncias, enquanto condenações são ainda mais raras.
A admissão elimina uma das principais controvérsias factuais do caso: havia militares israelenses no local e eles atiraram contra o carro e a ambulância. A investigação ainda terá de esclarecer quem autorizou os disparos, por que os veículos civis foram atacados e se as condutas configuraram crimes de guerra. Depois de dois anos de negação, a cobrança agora é por responsabilização efetiva.