
Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
Em outubro de 1993, o então deputado federal João Alves afirmou à CPI dos Anões do Orçamento (assim batizada porque envolvia parlamentares pouco relevantes) que seu patrimônio havia sido obtido graças ao sobrenatural e à sorte. Dizia que havia conseguido ganhar 200 vezes em loterias. “Deus me ajudou e eu ganhei muito dinheiro”, em frase que se tornou icônica devido à quantidade de óleo de peroba.
A comissão investigou 37 parlamentares por conta de um esquema multimilionário de aprovação de emendas para favorecer empreiteiras e desviar recursos para entidades fantasmas. Alves renunciou ao mandato em março e 1994 antes que a Câmara dos Deputados votasse a sua cassação.
Exatos 33 anos depois, vemos o advogado Willer Tomaz, Best Friend Forever de Flávio Bolsonaro, como a pessoa física que mais botou dinheiro em empresas de apostas no ano passado. Foram R$ 258 milhões depoistados, tendo apostado cerca de R$ 5 bilhões (em um longo ciclo de ganha e perde). A Polícia Federal, segundo reportagem de Natalia Portinari e Fábio Serapião, no UOL, suspeita que não se tratava de apostas reais, mas de um esquema para lavar dinheiro através do jogo e que ele é o sócio oculto da bet onde a lama aconteceu, a Blaze.
A defesa do advogado aponta que ele foi diagnosticado com ludopatia, ou seja, vício em jogos. Fico curioso para saber qual seria o diagnóstico para quem acredita nesse tipo de justificativa. Encefalopatia espongiforme bovina, o conhecido “mal da vaca louca”?
A PF investiga se Flávio é comparsa de Tomaz na lavagem de dinheiro. Ele aparece como “usuário master” de uma conta bancária da empresa Alcazar Holdings, cujo dono é o seu BFF. E isso lhe permitiria nível elevado de acesso e gerenciamento dos recursos. A defesa do senador nega.
Esse é o segundo inquérito em que o primogênito de Jair aparece como investigado por lavagem de dinheiro. No outro, a PF busca responder se ele cometeu esse crime, além de evasão de divisas e corrupção, com os mais de R$ 70 milhões que recebeu de Daniel Vorcaro para, em tese, produzir o filme “Dark Horse”, mas que podem ter ido para o bolso da família no exterior.

Voltemos ao amigo de Flávio. Um viciado raramente opera com a precisão de uma tesouraria. Em 30 de outubro de 2025, Willer depositou R$ 7 milhões fatiados em 14 transferências idênticas de R$ 500 mil e, no dia seguinte, sacou R$ 6 milhões em 18 minutos. Em 11 de novembro, fez 12 apostas em cinco minutos, somando mais de R$ 5 milhões. Ao longo do ano, foram 629 lances de meio milhão ou mais, boa parte numa mesa de blackjack VIP criada sob medida para ele. A compulsão, pelo visto, vinha acompanhada de planilha.
E a casa, que sempre ganha, desta vez nem sequer olhou. Segundo a reportagem de Portinari e Serapião, a Blaze nunca analisou as movimentações do maior apostador do país. Manteve-o o ano inteiro como cliente de risco “médio”, embora ele já tivesse sido preso sob suspeita de corrupção. O lambari vai parar no relatório, e o tubarão nada em paz.
Em 1993, João Alves atribuía a fortuna à mão de Deus. Em 2026, a explicação trocou de altar, saindo a providência divina e entrando a patologia. A lógica, no entanto, é a mesma de sempre: transformar o inexplicável em destino para que ninguém pergunte de onde veio o dinheiro.
A diferença é que os Anões do Orçamento eram figurantes da República, enquanto o melhor amigo de hoje frequenta o círculo íntimo de quem pode comandar o país.
A defesa estranha que o documento tenha vazado “justamente em período eleitoral”. Estranho seria o eleitor ir às urnas sem saber disso. Trinta e três anos depois, a sorte continua sendo o álibi preferido de quem não consegue explicar a própria fortuna, apostando que o país aceita bovinamente tudo.