
A economia do Chile enfrenta uma forte desaceleração durante o governo do presidente de extrema-direita José Antonio Kast, que assumiu o poder em março de 2026 com a promessa de estimular os investimentos e gerar empregos. Após sete meses de gestão, o país registra retração econômica, desemprego de 9,6%, inflação elevada e queda na produção de cobre, seu principal produto de exportação.
O Produto Interno Bruto (PIB) chileno recuou 0,5% no primeiro trimestre e 0,2% no segundo, na comparação com os mesmos períodos do ano anterior, diz a BBC. Os resultados representam a maior contração econômica desde a pandemia de Covid-19. Diante da deterioração dos indicadores, a desaprovação ao governo Kast ultrapassou 60%, segundo pesquisas locais.
O ministro da Fazenda, Jaime Quiroz, tentou tranquilizar empresários cristãos durante um encontro realizado no início de outubro, em Santiago. Utilizando referências bíblicas e dados econômicos, pediu aos participantes que mantivessem a confiança na recuperação do país. “Não percam a calma nem se desesperem”, afirmou, em meio às preocupações com os resultados da economia.
Um dos principais fatores da crise é o aumento dos combustíveis. Após o início da guerra no Irã, o governo Kast decidiu não adotar medidas para conter a alta do petróleo no mercado interno. A escolha provocou um aumento de aproximadamente 30% no preço da gasolina e superior a 40% no diesel, entre o período anterior ao conflito e meados de outubro.
A medida, conhecida no Chile como “bencinazo”, provocou manifestações populares e aumentou os custos de famílias e empresas. Em julho, a inflação anual chegou a 4,1%, pressionada principalmente pelos combustíveis. O encarecimento dos transportes e da produção também afetou outros setores da economia, reduzindo o poder de compra da população.
Segundo Nicolás Saldías, economista da Economist Intelligence Unit, o governo optou por não compensar os aumentos porque considerava excessivo o custo fiscal da intervenção. A decisão buscava preservar a estratégia de redução do déficit público, mas teve consequências políticas. “O custo político para o governo foi muito elevado, já que a popularidade de Kast caiu rapidamente e não se recuperou”, afirmou.
Outro problema é a retração da mineração, atividade fundamental para a economia chilena. Em agosto, a produção do setor caiu 17,4% em relação ao mesmo mês de 2025, atingindo seu menor nível em três décadas. A redução da extração de cobre, associada a dificuldades operacionais e condições climáticas adversas, comprometeu as exportações e as perspectivas de crescimento.

Diante desse cenário, o Banco Central do Chile reduziu sua projeção de crescimento para 2026 a uma faixa entre 0,25% e 0,75%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) também revisou sua estimativa para 0,6%. Caso as previsões se confirmem, o Chile estará entre as economias de pior desempenho da América Latina, à frente apenas da Bolívia.
A política de austeridade fiscal de Kast também passou a ser questionada. Desde março, o governo determinou um corte de 3% nos orçamentos dos ministérios, reduziu investimentos públicos e promoveu o encerramento ou a diminuição de programas considerados ineficientes. Para Saldías, essas medidas contribuem para a desaceleração ao diminuir a demanda interna.
Paralelamente, Kast conseguiu aprovar uma reforma tributária que reduz gradualmente o imposto sobre as empresas de 27% para 23%, além de oferecer garantias de estabilidade tributária para grandes investimentos. A proposta foi sancionada no início de outubro, após discussões sobre a possibilidade de os incentivos compensarem a perda de arrecadação com a geração de empregos e o crescimento econômico.
Os efeitos da crise já aparecem no consumo das famílias. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas, as vendas dos supermercados caíram 1,2% em agosto, na comparação anual. O desemprego chegou a 9,6%, maior índice em mais de cinco anos, enquanto os investimentos públicos e privados apresentaram crescimento nulo no segundo trimestre.
A proposta orçamentária para 2027 prevê aumento real de apenas 1,5% nos gastos públicos. A oposição critica a redução de recursos destinados a programas sociais e afirma que as medidas prejudicam a população mais vulnerável. O governo, por sua vez, sustenta que os cortes são necessários para reorganizar as contas públicas.
Diante da deterioração do mercado de trabalho, Kast anunciou um plano de aproximadamente US$ 1,3 bilhão para estimular a criação de mais de 100 mil empregos entre 2026 e 2027. A iniciativa prevê a aceleração de obras públicas e subsídios para empresas que realizarem contratações, medidas que representam uma mudança em relação à política inicial de contenção de gastos.
Economistas consultados pela BBC Mundo avaliam que a economia chilena poderá apresentar recuperação em 2027, caso os preços internacionais da energia diminuam, a mineração volte a crescer e as reformas produzam os resultados esperados. Até lá, o governo Kast enfrenta o desafio de conciliar sua política de austeridade com o aumento do desemprego, a perda de poder de compra e a insatisfação da população.