
Uma reportagem publicada pela revista piauí nesta terça-feira (20) aponta indícios de que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teria sido sócio oculto da Best Bet, casa de apostas ligada ao advogado Willer Tomaz. A investigação jornalística cruza registros empresariais brasileiros e portugueses, informações contábeis e documentos bancários obtidos pela Polícia Federal.
A Best Bet era operada pela Rede Loto. A ficha cadastral da Junta Comercial de São Paulo registra a Cathedral Holdings, sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, como única sócia da empresa no momento de sua constituição, em 2023. O capital registrado era de R$ 1 milhão. Uma listagem histórica do Ministério da Fazenda também identifica a Rede Loto como responsável pelas marcas BestBet e LotoLegal, com autorização estadual do Rio de Janeiro.
A ligação investigada com o candidato passa pela Alcazar Holdings, outra empresa de Willer Tomaz em Portugal. A Cathedral e Alcazar compartilhavam o endereço e o administrador, Mateo Scudeler. As duas estavam registradas na mesma sala de um edifício em Funchal, capital da Ilha da Madeira.

Nos relatórios contábeis, os créditos a receber da Cathedral passaram de 7,8 mil euros para 984 mil euros em 2025, enquanto as dívidas da Alcazar subiram de 8,1 mil para 824 mil euros. Um auditor do fisco português ouvido sob anonimato pela publicação levantou a hipótese de que a Cathedral tenha financiado a Alcazar, total ou parcialmente.
O vínculo bancário aparece em uma troca de e-mails com o Santander. Em 22 de maio de 2025, Fayla Zulmira Menezes, funcionária de Willer Tomaz, pediu ao banco que desassociasse do gerenciador de um usuário master uma conta identificada com o nome de Flávio Bolsonaro e outra identificada como conta pessoal do advogado. A comunicação tratava de procedimentos envolvendo a Alcazar.

Em relatório, a PF avaliou que o cadastro de Flávio Bolsonaro indicava acesso operacional relevante à conta da Alcazar, elemento que “sustenta a hipótese de sua eventual participação econômica ou societária de fato na empresa”. A assessoria do candidato contestou essa interpretação e afirmou que a vinculação bancária era indevida, motivo pelo qual teria sido solicitada sua retirada.
Os voos contratados pela Cathedral para Flávio Bolsonaro também aparecem na documentação reunida pela PF, segundo reportagem da Folha de S.Paulo. Os registros incluem viagens de Lisboa a Nice, em 11 de abril de 2025, e de Cascais a Nice, em 23 de maio, com familiares. A defesa de Willer Tomaz afirmou que os deslocamentos foram custeados pessoalmente pelo advogado, como passeios entre amigos, sem contrapartida.
A piauí informa que a PF solicitou ao Supremo Tribunal Federal a abertura de inquérito para investigar a suspeita de sociedade oculta de Flávio Bolsonaro na Best Bet.
Em manifestações anteriores, Flávio Bolsonaro negou manter conta com Willer Tomaz ou empresas do advogado como usuários master. Willer Tomaz também negou compartilhar conta bancária com o senador e afirmou que os dois mantêm apenas amizade, sem relação comercial ou financeira. Ambos contestam as interpretações dos registros bancários e a existência de sociedade.