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Escritório de Flávio emitiu R$ 13,7 milhões em notas durante mandato no Senado

Flávio Bolsonaro
O senador e candidato a presidência, Flávio Bolsonaro (PL). Foto: Divulgação/Raul Spinassé

O escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro (PL) emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, período em que o candidato à Presidência exercia mandato de senador. O levantamento do UOL analisou 62 comprovantes. Metade deles foi destinada a outros advogados, e a maioria descreve os serviços apenas como “assessoria jurídica”.

Foram consultados sistemas de tribunais estaduais, federais e instâncias superiores e encontrou somente um processo relacionado aos clientes identificados nas notas. A ausência de ações localizadas, porém, não demonstra que os serviços deixaram de existir: advogados também podem prestar consultoria, elaborar pareceres e oferecer orientação jurídica sem atuar em processos. Os clientes foram questionados sobre os trabalhos, mas não detalharam os casos.

Aberta em abril de 2021, a sociedade tem Flávio como único titular e funciona no endereço de sua mansão no Lago Sul, em Brasília. A administradora é Letícia Caetano dos Reis, irmã do contador Alexandre Caetano dos Reis, preso em dezembro de 2025 sob suspeita de envolvimento nas fraudes do INSS. Segundo o levantamento, o escritório não tem outros funcionários.

As transações da empresa serão examinadas pela PF em um inquérito sob relatoria de Alexandre de Moraes no STF. Uma das notas indica uma conta no Santander cuja titularidade, segundo a investigação, seria compartilhada por Flávio e Willer Tomaz. Os dois negam manter conta conjunta. A apuração sobre suas relações financeiras é distinta do inquérito que investiga o financiamento do filme “Dark Horse”.

O maior cliente identificado é o Nilo & Almeida Advogados Associados, que tem como sócio Edvaldo Nilo de Almeida. Duas notas de R$ 2 milhões cada, emitidas em agosto e outubro de 2025, representam 29% do faturamento documentado. Edvaldo Nilo foi nomeado por Jair Bolsonaro, em 2022, para a Comissão de Ética Pública da Presidência e atualmente integra o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).

UOL
Foto; Arte/DCM

O advogado afirmou que os pagamentos decorreram de um contrato celebrado em abril de 2025 para serviços prestados conjuntamente pelos dois escritórios a clientes privados, sem recursos públicos ou participação de entes federativos. Não identificou os clientes nem detalhou os trabalhos. As notas foram emitidas no ano em que buscava sua recondução ao CNMP, aprovada pelo Senado em novembro de 2025. Em setembro de 2026, Nilo declarou apoio à candidatura de Flávio em artigo no Poder360.

A Simas Industrial de Alimentos aparece como o segundo maior cliente, com três notas que somam R$ 3,3 milhões, emitidas entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024. Flávio recebeu procuração para representar a empresa em uma disputa entre sócios que chegou ao Superior Tribunal de Justiça. Willer Tomaz também atuou no caso, o único processo que a reportagem conseguiu relacionar aos pagamentos. Uma comunicação do Banco Daycoval sobre transferências da fabricante ao escritório foi encaminhada pelo Coaf ao inquérito de “Dark Horse”.

Duas sociedades de advocacia que levam o nome de Otto Medeiros aparecem em documentos que totalizam R$ 2,1 milhões, com cobranças recorrentes de R$ 50 mil em 2023 e 2024 e de R$ 40 mil a partir de 2025. O escritório afirmou que contratou a firma de Flávio para consultoria jurídica privada, seguindo critérios técnicos. Otto é amigo do ministro Kassio Nunes Marques, que se declara impedido em processos envolvendo o advogado.

A relação de clientes inclui ainda o escritório de Daniel Bettamio Tesser, integrante da defesa de Jair Bolsonaro. As notas relacionadas à banca somam R$ 970 mil, entre dezembro de 2025 e março de 2026, também sob a descrição de assessoria jurídica. Procurado para explicar a natureza dos trabalhos, o escritório não respondeu até a publicação do levantamento.

Outro conjunto de documentos envolve notas emitidas para empresas ligadas a Rogério Lourenço Novo. Em abril de 2025, a firma de Flávio emitiu duas notas de R$ 500 mil para a Copenhagen Assessoria e Consultoria, mas ambas foram canceladas. Dois dias depois, emitiu outra de R$ 500 mil para a Contábil Correa, que permaneceu válida. Lourenço Novo é sócio-administrador da Contábil Correa e diretor da Copenhagen, empresa que recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025, segundo o levantamento.

Em manifestação anterior sobre esses documentos, a defesa de Flávio afirmou que a contratação pela Copenhagen não avançou e que nenhum valor foi recebido por essas notas, motivo do cancelamento. Sobre a Contábil Correa, disse que houve contrato de assessoria jurídica. O senador também negou conhecer qualquer vínculo das empresas com o Banco Master.

Entre os clientes está Marcos Antonio Grecco, fundador do GNPW Group, parceiro empresarial da Evolution Power Partners, que arrematou R$ 17 bilhões em contratos no leilão emergencial de energia de 2021. Grecco afirmou que contratou Flávio em 2024 para atuar em um processo pessoal, com procuração nos autos, sem relação com o leilão ou com o grupo empresarial. Outro escritório, o Leonardo Amarante Advogados Associados, declarou ter contratado pareceres jurídicos, entregues e remunerados mediante nota fiscal; um documento registra R$ 239 mil.

A campanha de Flávio não respondeu aos questionamentos específicos sobre o levantamento até a publicação da reportagem. Parlamentares podem exercer advocacia, observadas as restrições legais aplicáveis ao mandato. O valor das notas representa faturamento documentado da sociedade e, isoladamente, não demonstra lucro pessoal do senador nem comprova irregularidade nos serviços.