
Por Leonardo Sakamoto no Uol
Se a investigação da Polícia Federal confirmar que o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atuou como sócio oculto de uma casa de apostas online, o Brasil estará diante de um dos retratos mais cruéis da hipocrisia política recente. Pois caso fique comprovado que o parlamentar era, de fato, beneficiário e operador informal desse negócio, ele terá sido sócio direto do endividamento e da ruína financeira de milhões de brasileiros viciados em apostas — a mesma tragédia social que hoje, em palanque eleitoral, ele afirma que pretende combater.
Reportagem de Allan de Abreu, Breno Pires, Felícia Cabrita e Mário Gouveia, na revista piauí, revelou um enredo intrincado de empresas de fachada e manobras regulatórias. O desenho começou a ganhar forma no início de 2023, quando o advogado Willer Tomaz, BFF de Flávio, estruturou a Cathedral Holdings na Ilha da Madeira, um conhecido entreposto fiscal português. Sob o guarda-chuva dessa offshore, nasceu a Rede Loto, dona da marca Best Bet. Pouco depois, em uma manobra facilitada pela Loterj (autarquia fluminense comandada por Hazenclever Cançado, apadrinhado político de Flávio), a casa obteve licença para operar e passou a explorar apostas em âmbito nacional.
O elo que puxa o senador para o centro da engrenagem não é mero detalhe de organograma. Flávio figurava formalmente como “usuário master” (sim, você tem 130 milhões de razões para rir disso) da conta bancária da Alcazar Holdings no Santander — empresa-irmã da Cathedral que dividia a mesma salinha em Funchal e cruzava transações contábeis suspeitas.
Ter acesso master significa poder irrestrito: autorizar pagamentos, transferir fundos e ditar os rumos do caixa. A desvinculação de seu nome da conta só foi solicitada em maio de 2025, justamente quando o cerco regulatório e judicial do governo federal e do Supremo Tribunal Federal encurralou as brechas da Loterj e inviabilizou o filé mignon da operação nacional da Best Bet. Coincidência ou não, o pedido partiu enquanto Flávio e Tomaz viajavam juntinhos pela Europa a bordo de um jatinho particular custeado pela dona da bet.
Nesta mesma terça, Artur Rodrigues e Fábio Serapião, no UOL, revelaram que o escritório de advocacia de Flávio emitiu, pelo menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026. A conta do Santander indicada para pagamento em uma das notas é a mesma que, segundo a PF, Flávio dividia a titularidade com Willer Tomaz.

Ganhar dinheiro com apostas online no Brasil significa lucrar com a drenagem da renda do trabalhador mais vulnerável, como já repeti aqui feito um suricato com cãibra. Nos últimos anos, as bets se transformaram em uma epidemia silenciosa, corroendo salários, benefícios assistenciais e economias pessoais, empurrando famílias inteiras para o endividamento e a depressão.
Se os indícios apontados pela PF se consolidarem, o senador enriqueceu enquanto o país empobrecia na roleta do smartphone. É o capitalismo de compadrio em seu estado mais predatório, usando a influência estatal para esvaziar os bolsos da população, lavando os lucros longe dos olhos do público.
Essa revelação é ruim para Flávio Bolsonaro que pretende alcançar o Palácio do Planalto no próximo domingo. Pesquisa Datafolha, divulgada em 1º de outubro, mostrou que 78% da população é favorável à proibição total de bets e cassinos online no país, determinada por Lula. O sentimento majoritário do eleitorado é de repulsa à devastação social promovida por essas plataformas.
Apresentar-se como líder austero e zeloso do bem-estar das famílias, enquanto surgem indícios de que compartilhava a gestão financeira do cassino que as endividava, é uma contradição insustentável.
A resposta para essa dúvida pode vir de forma lenta, através da investigação da PF, ou rápida, caso Flávio aceite a abrir mão de seu sigilo bancário, fiscal e telefônico, como propôs Lula a ele durante o debate da TV Bandeirantes. O petista protocolou pedidos no TSE e no STF autorizando a quebra de seus sigilos dos últimos oito anos, além de familiares e empresas, se Flávio Bolsonaro também assim o fizer. O eleitorado mereceria a resposta rápida antes de votar.