
Nunca imaginei, em meus piores pesadelos, que fosse passar por uma experiência tão tenebrosa como o debate de Lula e Flávio na Band. Os ataques pessoais do candidato bolsonarista deram o tom daquele ambiente e empurraram a discussão para longe dos problemas do país.
Na próxima sexta-feira, 23 de outubro, os dois voltarão a se enfrentar na Globo, no último debate antes das eleições. Lula precisa evitar a armadilha do adversário, que tenta sequestrar a discussão e afundá-la numa baixaria sem limites.
O Brasil não precisa reviver aquele horror. O presidente tem realizações a apresentar e pode acrescentar algumas pitadas de novidade para o futuro.
Nem precisaria inventar nada, bastaria reunir, sob uma ideia clara e uma retórica nova, o que seu governo já faz e os compromissos que vem assumindo. A distribuição de energia solar para todos e um grande projeto nacional de mobilidade urbana dariam forma a essa perspectiva.
Houve propostas na Band, faltou desenvolvê-las. Na resposta sobre produtividade, Lula afirmou “Nós criamos a Nova Indústria Brasil” e falou em “economia digital, com os data centers”.

Esses investimentos precisam ganhar uma tradução palpável, que desperte conversas no dia seguinte sobre o que ainda podemos construir. Data center diz pouco ao cotidiano de muita gente, enquanto a energia solar promete algo que todos entendem, uma conta de luz menor.
Transformar o Brasil numa potência solar merece lugar entre nossas ambições nacionais. Um programa de acesso à tecnologia para famílias e pequenos negócios levaria conforto às casas e alívio às despesas, permitindo usar o ar-condicionado e trabalhar com menos receio da fatura.
Instalações coletivas dispensam painéis no telhado de cada participante e permitem repartir créditos nas contas de luz. Assim, moradores de apartamentos, inquilinos e famílias das periferias entram no alcance da iniciativa, sem a exigência de imóvel próprio.
A proposta deve abrir esse acesso a toda a sociedade, independentemente da capacidade individual de comprar equipamentos ou contrair empréstimos. Para quem já acumula dívidas, interessa reduzir a despesa, em vez de assumir outra prestação.
Os deslocamentos urbanos impõem um sacrifício igualmente cotidiano. Filas, conexões e congestionamentos consomem dinheiro e horas retiradas do descanso, do estudo e da convivência familiar.
Na Band, Lula acusou Flávio de nunca ter entrado num ônibus, expondo sua distância da experiência dos trabalhadores. A ocasião convidava a um passo adiante, reconhecer o sofrimento dos passageiros e anunciar como enfrentá-lo.
Lula: “Ele conhece ônibus por literatura. Ele nunca entrou num ônibus. Ele conhece trabalhador por literatura porque nunca conversou com um trabalhador. Aliás, ele nunca trabalhou. Conhece algum cidadão que nunca trabalhou? É O FLÁVIO!”
#DebatenaBand
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— Sérgio Santos (@ZAMENZA) October 19, 2026
Tratar o transporte coletivo como atestado de intimidade com as privações populares encerra uma armadilha. A precariedade acaba naturalizada justamente quando a política deveria oferecer uma saída para ela.
Vejo aí um ponto cego da elite brasileira, presente inclusive na esquerda e no próprio Lula. Saúde e educação ocupam os discursos, mas o caminho até o hospital, o colégio ou a fábrica permanece em segundo plano, como se erguer esses lugares dispensasse garantir acesso a eles.
Barcas, metrôs, trens, VLTs, ônibus e ciclovias precisam integrar um grande projeto nacional. O trabalhador merece chegar ao destino com conforto, livre das horas em filas e das viagens espremidas todos os dias.
A gratuidade nos fins de semana e feriados, proposta por Lula ao Congresso e ainda dependente de aprovação, favorece o lazer e o turismo. Os trajetos diários, porém, continuam no centro do problema, pela perda de tempo e pelo prejuízo à produtividade da economia.
O próprio governo dispõe de exemplos para transformar essa necessidade numa bandeira. O BNDES financia o Trem Intercidades São Paulo–Campinas, enquanto recursos federais ajudam a implantar o VLT de Salvador, já em operação assistida, e a ampliar o metrô da capital baiana.
A União formalizou ainda a destinação de R$ 3 bilhões para a ponte Salvador–Itaparica. Falta reunir essas iniciativas numa visão de país e explicar a mudança que anunciam para a vida das pessoas.
BNDES e Banco dos BRICS podem financiar essa transformação. Por que não negociar com a China uma parceria para trazer tecnologia e construir uma rede de transporte à altura do Brasil?
Esse conteúdo faz falta ao “Ministério da Prosperidade” proposto por Flávio. Um nome sedutor na porta de uma repartição não põe trens nos trilhos nem diminui a conta de luz.
Energia acessível e transportes de qualidade promovem uma melhora horizontal na sociedade brasileira. Seus benefícios atravessam a produção, a educação e a saúde, alcançando todos por meio de políticas universais.
Sinto falta dessa abrangência na comunicação do governo, frequentemente presa ao que chamo de uma sintaxe do pobrismo. A figura do destinatário de auxílio encobre o cidadão que deseja conforto, autonomia e acesso à modernidade.
Proteger os mais vulneráveis e construir soluções abrangentes são tarefas necessariamente complementares. Um desenvolvimento sustentável precisa estender seus benefícios à sociedade inteira, elevando a maré para todos os barcos.
O voto envolve renda, valores e uma visão de mundo. A extrema direita disputa esse terreno, exigindo da esquerda uma resposta que ultrapasse indicadores econômicos.
Liberdade, segurança e vida em sociedade pertencem à filosofia política e atravessam as escolhas cotidianas.
A preocupação com o impacto da inteligência artificial no emprego torna urgente essa conversa. Pesquisa, tecnologia e proteção social precisam caminhar juntas para oferecer esperança e evitar que o trabalhador acabe tratado como peça descartável do progresso.
A esquerda retomou as cores da bandeira e o discurso patriótico, além de recuperar espaço no debate sobre ética na política. Falta agora disputar com a extrema-direita as bandeiras da liberdade, da segurança e da família.
A tradição progressista não pode abandonar a liberdade, consagrada no lema da Revolução Francesa e ampliada por lutas contra a escravidão e pela conquista de direitos. Licença médica, férias remuneradas e limite de horas por semana protegem as famílias e dão ao trabalhador condições de escolher como viver.
Lula precisa traduzir essas conquistas em discurso político. Defender a liberdade significa garantir que as pessoas possam cuidar dos filhos, estudar, trabalhar e construir o próprio futuro sem viver à mercê da necessidade.
Além disso, o Brasil precisa melhorar muito seu debate político, a começar pela mídia. Cabe a ela elevar a qualidade da discussão e colocar os grandes projetos nacionais no centro da conversa.
Lula tem a oportunidade de elevar o próximo debate e devolver ao país uma conversa sobre o amanhã. Dois grandes compromissos nacionais dariam aos brasileiros algo melhor para levar para casa do que a lembrança de mais uma troca de ofensas.
Publicado originalmente em O Cafezinho