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VÍDEO – Apresentador francês ri de bolsonaristas que consideram Macron de esquerda

Yann Barthès, apresentador do Quotidien. Foto: reprodução

O jornalista Yann Barthès, apresentador do talk show francês “Quotidien”, reagiu com ironia à informação de que bolsonaristas consideram o presidente da França, Emmanuel Macron, um político de esquerda. A risada dele, e de sua plateia, foi ainda maior quando soube que, em alguns casos, o consideram até mesmo “comunista”.  A percepção está ligada, entre outros fatores, à relação próxima mantida pelo francês com o presidente Lula (PT).

No entanto, essa percepção distorcida contrasta com a trajetória recente do macronismo, marcado por políticas liberais, aproximação com a centro-direita e confrontos frequentes com partidos da esquerda francesa.

Durante o programa, Barthès perguntou ao correspondente no Brasil se os bolsonaristas realmente enxergavam Macron dessa maneira. “Eles realmente acham que Emmanuel Macron é de esquerda no Brasil?”, perguntou o apresentador.

O repórter confirmou: “Ah, sim, todos estão convencidos disso. Para eles, ele é até comunista”. Barthès então riu da situação. “Está vendo? Acho que eles são bem mal informados”, respondeu.

A associação brasileira entre Macron e a esquerda ganhou força principalmente por sua proximidade diplomática com Lula. Em 2024, durante viagem ao Brasil, os dois presidentes apareceram juntos em uma série de compromissos e defenderam posições comuns em temas ambientais e internacionais. O próprio “Quotidien” destacou à época a estratégia de Macron de enfatizar os pontos de convergência com o governo brasileiro.

Protestos na França

Na política francesa, no entanto, Macron não só representa a direita como tem se afastado cada vez mais do diálogo com a esquerda. Ele chegou ao poder apresentando-se como centrista e tentando superar a divisão tradicional entre esquerda e direita, mas seu governo passou por um deslocamento progressivo em direção à centro-direita.

Em 2024, o Le Monde chegou a afirmar que a composição do governo de Michel Barnier confirmava uma “guinada à direita” do macronismo.

Um dos episódios que provocaram maior ruptura com a esquerda ocorreu após as eleições legislativas daquele ano. A coalizão progressista Nova Frente Popular terminou com o maior número de deputados, mas Macron rejeitou a indicação de Lucie Castets para primeira-ministra.

O presidente argumentou que um governo formado exclusivamente a partir daquela aliança seria imediatamente derrubado por uma moção de censura.

A relação segue conflituosa. Na atual crise política francesa, o governo de Sébastien Lecornu, nomeado por Macron, responsabilizou grupos da extrema esquerda por parte dos atos violentos registrados durante os protestos de outubro. O primeiro-ministro denunciou o que chamou de planejamento de um “esquema insurrecional” por grupos da extrema esquerda e da “ultraesquerda”.

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, também entrou em confronto direto com a França Insubmissa (LFI), legenda de Jean-Luc Mélenchon. O partido acusa o governo de tentar responsabilizá-lo politicamente pela violência ocorrida durante manifestações contra o custo de vida e a situação dos serviços públicos. O governo nega ter ordenado aos serviços de inteligência que incriminassem a sigla.

Macron também protagonizou reformas amplamente combatidas pela esquerda e pelos sindicatos, entre elas a mudança previdenciária que elevou a idade mínima de aposentadoria de 62 para 64 anos. A reforma tornou-se um dos símbolos do confronto entre seu governo e movimentos sociais e acabou suspensa posteriormente em meio às negociações do governo Lecornu com o Partido Socialista.

Mesmo veículos internacionais variam na classificação exata do presidente francês: a Associated Press o descreve como centrista e, em análises recentes, também como presidente de centro-direita. O ponto em comum é que Macron não pertence à esquerda francesa — muito menos ao campo comunista — e enfrenta justamente alguns de seus principais partidos e movimentos.