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Sakamoto: Farra de Flávio com lobistas mistura prazeres pagos e desprezo pela vida

O senador Flávio Bolsonaro durante campanha em Juiz de Fora (MG). Foto: Pablo Porciuncula/AFP

Por Leonardo Sakamoto no Uol

Não é o pagamento de propina na forma de Rolex, de bebidas e do serviço de garotas de programa que mais chama atenção na nova investigação da revista piauí sobre Flávio Bolsonaro, que pode ser eleito presidente da República no próximo domingo. É o fato de que, apesar de se vender como o “Bolsonaro que toma vacina”, ele lubrificava relações com picaretas que usavam o imunizante para tentar ganhar bilhões do governo gerido (sic) por seu pai. Tudo enquanto mais de mil pessoas morriam por dia durante a pandemia.

Na noite de 16 de julho de 2020, o país contava 1.299 mortos por Covid em 24 horas. Minutos depois, segundo reportagem de João Batista Jr, Ana Clara Costa e Breno Pires, um jatinho decolava de Congonhas rumo a Brasília com Francisco Maximiano e Danilo Trento, dono e diretor da Precisa Medicamentos, o agente de viagens da dupla e três garotas de programa. No dia seguinte, o senador embarcou numa lancha no Lago Paranoá abastecida com vodca, gim e companhia contratada. Ao desembarcar, ganhou o Rolex tirado do pulso de Trento. Naquele 17 de julho, 1.110 brasileiros morreram.

A Precisa dizia representar a fabricante indiana da Covaxin. Enquanto Pfizer e Sinovac batiam à porta do Ministério da Saúde e ouviam silêncio, a empresa amiga negociava a dose a 80 reais. A Pfizer cobrava cerca de 56. A AstraZeneca, 18. Cada mês de atraso na vacinação significou milhares de covas a mais. Mas havia tempo para a farra.

Depois, Flávio agiu como se espera de um convidado agradecido. Levou Maximiano ao presidente do BNDES e participou da reunião, seu único encontro oficial com o banco naquela gestão até então. Na CPI da Pandemia, elogiou a diretora da Precisa por supostamente economizar dinheiro público apesar dos números. E debochou do escândalo, dizendo que não houve corrupção porque nenhum real foi pago. Esqueceu de dizer que o negócio só não se consumou porque um servidor público, Luis Ricardo Miranda, desconfiou e botou a boca no trombone.

Flávio Bolsonaro e, à direita, Willer Tomaz, em uma foto encontrada pela PF no iCloud do advogado – Crédito: Reprodução

Dirão que é moralismo falar das garotas de programa. O problema não é as profissionais do sexo, que estavam ganhando seu dinheiro suado, mas o uso de mulheres como moeda de lobby, revistadas, sem celular, com bolsas confiscadas, conforme relatos ouvidos pela piauí. É a mesma lógica que trata gente como mercadoria e transformou a pandemia em balcão.

Flávio construiu sua candidatura tentando se descolar do pai, apontando ser moderado, vendendo ser o “Bolsonaro que toma vacina”. A denúncia sugere que a diferença era de estilo, não de substância. Jair desdenhava da vacina em público. O filho, segundo a revista, desfrutava em privado da hospitalidade de quem queria lucrar com ela. Um negava a doença, já o outro brindava com quem tentava vender a cura mais cara.

Em julho de 2020, famílias se despediam de seus mortos por videochamada, sem velório, sem abraço. Enquanto isso, o primogênito do presidente tomava sol sem camisa num barco bancado por quem queria vender vacina ao governo do pai, preocupado apenas que algum drone registrasse a cena. Nenhum drone registrou. Mas os 1.110 mortos daquele dia ficaram registrados, e eles não cabem na caixa de um Rolex. Somam-se aos mais de 700 mil mortos na pandemia, mais da metade que podia ser evitada se o clã Bolsonaro não estivesse ao lado do vírus.

Ironicamente, no domingo, os eleitores podem entregar a faixa a quem, quando o país sufocava, escolheu aos prazeres da lancha.