
O divulgador científico e biólogo Átila Iamarino publicou um vídeo de cerca de dez minutos nas redes sociais em que se posiciona sobre a eleição presidencial e faz duras críticas ao senador Flávio Bolsonaro (PL) e à condução da pandemia pelo governo de Jair Bolsonaro.
Partindo de uma reportagem recente da revista Piauí sobre um encontro do senador com empresários ligados à Precisa Medicamentos, ele sustenta que decisões tomadas durante a crise sanitária não podem ser explicadas apenas pelo negacionismo. “Agora dá para resumir aqui por que não foi negacionismo, e sim negócio, o que fizeram na pandemia”, afirmou.
A reportagem citada por Átila afirma que Flávio participou, em 17 de julho de 2020, de um passeio de lancha no Lago Paranoá com Francisco Maximiano e Danilo Trento, da Precisa, empresa que buscava negociar a Covaxin com o governo Bolsonaro. Segundo a apuração, havia três garotas de programa no encontro e Trento teria dado um Rolex ao senador. Flávio não comentou o relato.
“Enquanto morriam mais de mil pessoas de Covid naquele dia, ofereceram as garotas e um Rolex para ele”, resumiu Átila. Meses depois, a Precisa participou das tratativas para vender a vacina indiana ao Ministério da Saúde.
O divulgador científico contrapôs essa negociação às ofertas feitas pela Pfizer em 2020. Em agosto daquele ano, a farmacêutica propôs ao governo contratos de 30 milhões ou 70 milhões de doses, com possibilidade de entrega ainda em 2020.
Na pandemia, não foi negacionismo, foi negócio. Foi de pai para filho. https://t.co/DyzorpCalJ
— Atila Iamarino – atila.bsky.social (@oatila) October 23, 2026
O representante da companhia declarou à CPI da Covid que a proposta expirou sem ser aceita nem rejeitada pelo governo. A Pfizer também enviou uma carta diretamente a Jair Bolsonaro e outros integrantes do Executivo. “Só que não tinha intermediação, não tinha churrasco, não tinha o filho no meio. E aí o governo brasileiro não respondeu”, afirmou Átila.
Para ele, o contraste ajuda a explicar o que ocorreu. “Isso não foi negacionismo, isso foi negócio”, repetiu ao longo do vídeo. O contrato posteriormente assinado para a Covaxin previa 20 milhões de doses por US$ 15 cada, totalizando US$ 300 milhões.
O preço foi superior ao pago pelo Brasil por vacinas como Pfizer, Janssen e AstraZeneca. A contratação acabou suspensa antes de qualquer pagamento após suspeitas levantadas dentro do próprio Ministério da Saúde.
Átila também relembrou declarações de Jair Bolsonaro contra a vacinação, incluindo a fala em que o então presidente ironizou possíveis efeitos adversos da Pfizer e mencionou a possibilidade de alguém “virar jacaré”.
Segundo o cientista, enquanto vacinas já testadas enfrentavam resistência, havia interesse em abrir espaço para outros negócios. “Depois de criar o desespero, venderiam primeiro para quem pagasse mais”, disse, ao mencionar as discussões da época sobre compra de imunizantes pela iniciativa privada.
No trecho mais duro do vídeo, Átila responsabiliza politicamente pai e filho pelas consequências da condução federal da pandemia. “Se a gente tivesse feito o mínimo na pandemia, na média mundial, teria visto quatrocentas mil mortes a menos”, afirmou.
Ele também citou estimativas segundo as quais dezenas de milhares de vidas poderiam ter sido preservadas com uma vacinação iniciada mais cedo. Essas cifras são apresentadas por Átila como resultado de estudos e estimativas sobre o impacto do atraso na imunização, e não como uma conclusão judicial sobre responsabilidade individual.
O divulgador científico ressaltou ainda o papel da Anvisa, do SUS, do Butantan, da Fiocruz e de servidores públicos que questionaram a negociação da Covaxin. “Só não conseguiram por causa de órgãos como a Anvisa e de funcionários públicos”, afirmou. Para ele, foram essas instituições que funcionaram como barreiras contra decisões que considera prejudiciais durante a pandemia.
Na reta final da eleição entre Lula (PT) e Flávio, Átila trouxe o episódio para o presente. “Se você acha que isso é passado ou que é coisa só do pai, lembra que o filho já falou em alterar a Constituição”, declarou. O vídeo termina com uma pergunta direta aos eleitores sobre o modelo de governo associado por ele ao candidato do PL: “É essa gestão que você quer?”.