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Um voto em homenagem a meu pai, o velho Alaor do Leão. E a um Brasil pacificado. Por Kakay

Kakay e seu pai, Alaor do Leão, posam para foto em praia do Rio, em 1977. Reprodução

“Aquilo que causa a noite entre nós também pode deixar estrelas.”
— Victor Hugo

A pessoa que mais amei na vida foi meu pai. Um homem sem instrução formal, mal desenhava o próprio nome. E tinha a segurança de quem sabia estar do lado certo da história. Certa vez, eu o apresentei, em um jantar, a um embaixador culto e sofisticado. Minha mãe sorriu e me falou: “Curiosa para saber o que vão conversar”. Deixei os dois a sós e voltei uma hora depois. O embaixador estava encantado com as histórias que meu pai contava. Seguro. Alegre. Feliz. Um contador de casos, em regra, vividos e inventados, pois lhe faltavam histórias de livros e romances literários. Mas eram os mais instigantes, engraçados e excêntricos.

Sua ânsia de viver marcou a vida de toda a minha geração que convivia com ele. Era um homem duro na sua lida rural e diária, mas o mais amoroso que conheci. Beijava e abraçava muito os filhos, sobrinhos e amigos. Em uma época de carinhos contidos entre os homens, ele era desbravadamente afetivo. Tinha orgulho do beijo dado. Fazia bem a ele e a nós.

Excesso de afeto nunca é demais. Aprendi isso nas madrugadas frias, andando a cavalo ao lado dele, ao romper da aurora, ou simplesmente ouvindo as histórias sem fim que ele contava e inventava. Era uma época de perplexidades profundas. Muitas dificuldades. Ele só pedia uma coisa aos cinco filhos: “Estudem. Façam uma faculdade. Façam o que eu não consegui fazer”.

E ele queria ter feito Direito. Não passou do primário, mas aprendeu com intensidade o que não se aprende nas universidades. Lembro-me do orgulho com que ele contava que todos os cinco filhos tinham se formado em universidades públicas. Como não consegui ser poeta, eu, no fundo, fiz Direito para tentar mudar o mundo e para me sentir perto dele. Sou um pouco ele. Ele está sempre comigo.

Lula e Flávio Bolsonaro durante debate – Foto: Reprodução

Escrevo isso na angústia da votação para presidente da República. Depois de um debate não definitivo, no qual o miliciano se jactou de ser um miliciano, fez questão de afrontar um trabalhador que perdeu um dedo em um acidente de trabalho, logo ele, que viveu a vida inteira de rachadinhas e negócios escusos, sem conhecer o que é trabalho.

É impossível não pensar no que faria meu pai nestas eleições. Homem simples, da roça, conservador, ele tinha seus princípios e definições. Eu tenho certeza de que jamais apoiaria um miliciano, covarde, que protege e se associa a matadores de aluguel. No interior de Minas Gerais, o matador de aluguel, o mandante de assassinato, é muito mais desprezado do que o assassino por paixão.

O homem que mente como Flávio Bolsonaro é tido como uma pessoa que não merece crédito. São conceitos e regras básicas. Comuns. Não é preciso recorrer à filosofia. Aquele que mente compulsivamente não merece nossa confiança.

Meu pai era um homem rude na lida com os bois, os cavalos e a vida dura da roça. Mas foi com ele que aprendi a respeitar as mulheres, os pobres, os invisíveis sociais. O carinho, o cuidado e o respeito dele por minha mãe eram envolventes. Cresci vendo-o colocar minha mãe no céu, com uma quase veneração.

Meu pai nunca levantou a voz nem para minha mãe nem para os filhos. Eu cresci certo de que esse amor e respeito eram a regra entre as famílias. Demorou muito para eu sentir que o mundo surpreende e que a vida dá, nega e tira, como digo, parafraseando Trasíbulo Ferraz.

Minha vida, embora simples e marcada por grandes dificuldades financeiras, era muito feliz. Aprendi a amar incondicionalmente. A ser solidário. A ter empatia. A sofrer a dor dos outros.

Sem nunca ter um partido político, aprendi a respeitar o PT. Humanista de esquerda. Aprendi a admirar o trabalho de Lula, que se empenhou em retirar o Brasil do mapa da fome. A desprezar o cinismo bolsonarista no negacionismo da pandemia. Tudo simples e profundo, como o velho e amado Alaor do Leão. Do lado certo da história. E com paixão e coragem.

Por isso, ouso pedir seu voto para um Brasil que queremos livre das amarras e mordaças bolsonaristas da extrema direita.

Você pode não ser petista, como eu não sou. Pode considerar que Lula ficou tempo demais no governo e que deveria ter trabalhado outro nome para sua sucessão; que Janja fala muito, embora seja bom ter uma primeira-dama ativa. E é bom lembrar que é ela quem mantém Lula feliz, renovado, com força e disposição.

É verdade que a renovação faz bem ao Estado Democrático de Direito. Mas não podemos apoiar um projeto miliciano, que apoia e favorece facínoras, matadores e achacadores, de uma extrema direita golpista que quer entregar o Brasil a Trump e pede a intervenção militar.

Enfim, é uma hora de decisão para definir o país que queremos para nós, nossos filhos e nossos netos. Para mim, é fácil, pois voto a favor da vida, do respeito e da liberdade.

Se for difícil para você votar em Alckmin e Lula, vote contra os apoiadores da tortura, dos milicianos, dos amantes da mentira. Votando assim, estaremos do mesmo lado. Vamos votar para a democracia ganhar. Vamos virar.

Lembrando o velho Winston Churchill:

“A diferença entre os humanos e os animais é que os animais jamais permitem que um estúpido lidere a manada.”