Diário do Centro do Mundo | O que interessa e nada mais

Logo DCM
Logo DCM
Apoie o DCM

O povo brasileiro salvou o mundo. Por Miguel do Rosário

Luiz Inácio Lula da Silva
Luiz Inácio Lula da Silva. Foto: Reprodução

Por: Miguel do Rosário

Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.

Euclides da Cunha, Os sertões

Não é exagero. O que aconteceu no Brasil neste domingo, 25 de outubro de 2026, vai ficar na história da humanidade como a maior vitória democrática de todos os tempos.

Digo isso com a emoção de quem atravessou estas semanas sentindo o peso do que estava em jogo. O povo brasileiro decidiu o futuro do Brasil e, com ele, uma parte do futuro da América Latina e da humanidade.

Lula venceu Flávio Bolsonaro e conquistou um quarto mandato presidencial. Na atualização das 21h26, com 99,87% da apuração, tinha 51,76% dos votos válidos, contra 48,24% do adversário.

A vitória nasceu de uma virada inédita nas disputas presidenciais brasileiras. Lula saiu do primeiro turno atrás de Flávio e chegou ao segundo com a tarefa de transformar uma derrota em mobilização popular.

Por trás dessa mudança estão milhões de pessoas que recusaram a resignação. Gente que conversou, discutiu, escreveu, saiu às ruas e decidiu que o destino do país também dependia daquilo que cada um fosse capaz de fazer.

Um amigo da Bahia me disse que um maluco e o povo brasileiro tinham tomado nas mãos as rédeas do futuro do país e do mundo. O maluco, na formulação carinhosa dele, era André Janones.

A frase tinha a inteligência das coisas ditas no calor da hora. Ela reconhecia o valor da disposição de enfrentar, de responder, de disputar cada espaço, quando tanta gente parecia já se preparar para aceitar a derrota.

O povo brasileiro tomou as rédeas do seu destino. E impediu que a família Bolsonaro voltasse a controlar a Presidência da República.

Povo brasileiro nas eleições
Eleitores brasileiros participam das eleições. Foto: Reprodução

Eu vivi essa ameaça também no corpo. Logo depois do primeiro turno, fiquei doente, com a pressão arterial tão alta que precisei parar.

A política não foi a única causa. Mas a angústia daquele resultado agravou o que já estava acontecendo comigo e funcionou como um estopim.

Eu quase morri. Escrevo isso porque a lembrança do que passei ainda está muito próxima, misturada à alegria de ver o país escapar do futuro que tanto me assustava.

Imagino quantos brasileiros também adoeceram de medo, ansiedade e exaustão nessas semanas. Quantas pessoas atravessaram os dias tentando trabalhar e cuidar da família enquanto pensavam no que significaria entregar novamente o Brasil aos Bolsonaro.

Eu me sentia um soldado num hospital de campanha, vendo os nazistas entrarem em Paris e tentando fazer alguma coisa. A imagem me vinha enquanto eu escrevia meus artigos, até o momento em que precisei interromper também esse trabalho.

Essa era a dimensão da minha impotência. Eu queria continuar na batalha, mas precisava reconhecer os limites do meu corpo.

Por isso a vitória desta noite me toca de uma maneira tão pessoal. Enquanto eu precisava parar, milhões de brasileiros continuaram.

Seria uma humilhação abominável ver o país devolver seu futuro a uma família que fez do desprezo pela democracia uma identidade política. As próximas gerações herdariam também a responsabilidade de enfrentar as consequências dessa escolha.

O povo brasileiro deu outra resposta. Escolheu preservar a possibilidade de construir um país mais justo, em vez de entregar sua esperança ao ressentimento e à brutalidade.

A vitória de Lula, neste momento, tem um valor simbólico imenso para o mundo. Na América Latina, a extrema direita conquistou governos, mas suas vitórias eleitorais já convivem com maiorias que desaprovam sua atuação.

Na Argentina, Javier Milei tinha 57,2% de desaprovação na pesquisa AtlasIntel/Bloomberg realizada no início de outubro. No Chile, José Antonio Kast chegou a 66% de desaprovação na Cadem divulgada neste domingo, pouco mais de sete meses depois da posse.

É nesse cenário que o povo brasileiro oferece uma resposta de alcance internacional. A vitória de Lula fortalece quem luta pela democracia e mostra que o avanço da extrema direita pode ser enfrentado e derrotado nas urnas.

É nesse sentido que digo que o povo brasileiro salvou o mundo. Salvou uma possibilidade de futuro que uma derrota nossa teria tornado mais estreita, mais violenta e mais difícil para muita gente além de nós.

Em Canudos, a resistência terminou no extermínio daqueles quatro últimos defensores. Mas o heroísmo de toda Canudos foi imortalizado pela literatura.

Assim também será lembrado o heroísmo de cada um de vocês, que lutou à sua maneira para construir esta vitória.

A vitória não resolve todos os nossos problemas, mas nos devolve condições de enfrentá-los. Temos trabalho pela frente, cobranças a fazer e um país inteiro para cuidar.

Nesta noite, porém, quero agradecer. A cada pessoa que continuou quando parecia impossível, a cada brasileiro que encontrou forças para conversar com mais alguém, a cada voto que ajudou a construir essa virada.

Parabéns, povo brasileiro. Vocês salvaram o Brasil e deram ao mundo uma razão imensa para continuar acreditando na democracia.

Como disse Lula, recordando as lutas de Vila Euclides

Que ninguém nunca mais ouse duvidar da capacidade de luta dos trabalhadores brasileiros.

Publicado originalmente em O Cafezinho.