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Sakamoto: Flávio Bolsonaro mostra que não saber perder é hereditário

Flávio Bolsonaro em discurso após o resultado das eleições que reelegeram Lula no 2º turno em 2026. Foto: Reuters/Adriano Machado

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

É de onde menos se espera que não vem nada mesmo. Se você acreditou em Flávio quando ele dizia, em entrevistas e sabatinas, que reconheceria qualquer resultado da eleição é porque perdeu as últimas temporadas desta sitcom chamada Os Bolsonaros.

Após perder a disputa pela Presidência da República para Lula, na noite deste domingo (25), o senador disse que pedirá à Justiça a anulação da eleição. O motivo é a extensão do horário de votação em duas horas, determinada pelo Supremo Tribunal Federal hoje. Flávio criticou Cristiano Zanin, autor da decisão, sugerindo que foi coisa combinada com o petista. Coisa de mau perdedor.

Em primeiro lugar, sua própria campanha também pediu o adiamento do horário de votação, alegando que as fortes chuvas no Sul do país haviam atrapalhado eleitores. E a campanha de Lula pediu o mesmo devido à falta de ônibus em cidades como Salvador e São Paulo, o que prejudicou eleitores mais pobres. Detalhe importante: Salvador e São Paulo são administradas por aliados de Flávio.

Zanin concedeu a liminar em nome das duas campanhas. Flávio esqueceu-se disso no seu discurso indignado. Tampouco se lembrou de que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, responsável por um rosário de decisões favoráveis a ele ao longo do processo eleitoral, reconheceu a vitória de Lula e disse que o adiamento não havia alterado o resultado da eleição.

O TSE, aliás, vai divulgar, nesta segunda (26), quantos votos foram computados nesse período de extensão, mas técnicos adiantaram que foi quase nada porque a maioria das seções já havia fechado. A diferença entre Flávio e Lula foi de mais de 4,43 milhões de votos, bem maior que aquela entre Lula e seu pai, Jair, em 2022 (2.139.645 almas).

Sejamos francos: o senador Flávio Bolsonaro encontrou uma desculpa. Se alguém poderia reclamar de uma grande quantidade de votos que deixou de receber por interferência indevida, esse seria Lula, uma vez que a votação dele seria ainda mais elástica em São Paulo e em Salvador caso não tivesse ocorrido o bloqueio de ônibus nessas cidades.

Flávio usou a extensão do horário, mas, se ela não tivesse ocorrido, culparia a cor do céu, a textura da terra, o cheiro no ar, o gosto da água, o som dos passarinhos. A chance de a reivindicação dele prosperar no Tribunal Superior Eleitoral é zero. Ele fez esse discurso para sua militância, a fim de mantê-la engajada, para que persiga mais uma teoria da conspiração. Também vai tentar usar isso para evitar o reconhecimento da eleição pelos Estados Unidos de Donald Trump e outros governos da extrema direita, como a Argentina de Javier Milei.

Com essas declarações, Flávio desmente analistas, empresários, e jornalistas que tentaram vendê-lo como o Bolsonaro moderado. O senador obteve 59,8 milhões de votos e, naturalmente, pode pleitear a posição de líder da oposição. Mas seu primeiro ato como derrotado foi diminuir a própria estatura.

No fim, a nova temporada repete o roteiro antigo: perder, espernear e atacar o resultado das urnas. O pai foi além e tentou um golpe de Estado. Esperemos que ele não vá tão longe.