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Sakamoto: Virada de Lula impõe freio ao avanço da extrema direita na América Latina

O presidente Lula segura a Constituição durante ato com apoiadores. Foto: Danilo Verpa/Folhapress

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Quem olhou o mapa político da América Latina nos últimos meses viu a tal “onda azul” avançar. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella derrotou Iván Cepeda por menos de 1% no segundo turno. No Peru, Keiko Fujimori, filha do ditador, superou seu rival por cerca de 49,6 mil votos, uma diferença de apenas 0,27%. Somam-se a eles Kast no Chile e Bukele em El Salvador, entre outros. E gritando mais do que qualquer um, Milei na Argentina.

Os governos de direita já são maioria na região, superando o ciclo progressista anterior. Faltava a joia da coroa: o Brasil. Mas ela não veio.

Em uma virada histórica, Lula obteve 51,8% dos votos válidos, contra 48,2% de Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, Flávio havia sido o mais votado, com 47%, dois pontos à frente do petista, uma diferença de 2,2 milhões de votos.

Viradas não acontecem por geração espontânea.

A movimentação das ruas e das redes no segundo turno riscou uma linha no chão. Uma parcela imensa do Brasil avisou, em alto e bom som, que não ficaria calada diante de tentativas de retrocesso representadas pela volta do clã Bolsonaro.

Isso significa mais do que o chavão de que o país sai dividido das urnas, pois dividido ele já estava. As grandes manifestações foram muito mais do que atos de campanha. Reuniram gente que gosta de Lula, que o tolera, que o critica duramente e até quem gostaria de nunca mais precisar votar nele.

Pessoas que discordam sobre economia, segurança pública, costumes e os meios pra se chegar ao futuro, mas que convergiram diante da percepção de que a democracia corria riscos reais.

Basta ver quem estava na primeira megamanifestação a favor de Lula na avenida Paulista no dia 11 de outubro. O ato foi organizado de forma independente por grupos de jovens e fandoms, comunidades de fãs de artistas pop. Teve torcidas organizadas, movimentos estudantis e representantes LGBT+. Uma semana depois, houve atos em Rio, Salvador, Brasília e Belo Horizonte.

O dado mais relevante desse segundo turno talvez tenha sido o fortalecimento de uma musculatura política que não depende exclusivamente dos partidos. Eles continuam fundamentais, mas entraram em cena coletivos, organizações cidadãs e indivíduos que decidiram pegar o touro à unha.

Uma geração que aprendeu a disputar narrativas nas redes, muitas vezes enfrentando máquinas profissionais de desinformação, foi às ruas olhando nos olhos, caminhando ao lado de desconhecidos e reconhecendo no outro um aliado possível.

Ao mesmo tempo, a esquerda começou a aprender a disputar o ambiente digital. Ainda há uma distância enorme entre usar as redes e compreender plenamente a linguagem delas, mas as últimas semanas mostraram que criatividade, humor, indignação e organização podem ser mobilizados sem copiar os métodos do adversário. No segundo turno, ruas e redes deixaram de ser universos paralelos e passaram a funcionar como partes de uma mesma mobilização.

E não foi em campo plano. No TSE, o presidente da corte, Kassio Nunes Marques, suspendeu o canal “Exército do Lula”, comandado no WhatsApp por André Janones, e três dias depois o suspendeu pela segunda vez. Uma proposta de resolução articulada por Nunes Marques e André Mendonça previa suspender canais políticos com mais de 200 mil seguidores na reta final. Foi preciso que o ministro Floriano de Azevedo Marques proibisse o presidente da corte de emitir qualquer decisão individual suspendendo o canal, a dois dias da votação. Editoriais de jornais apontavam tentativ de manipulação da eleição pelos dois. Sim, chegamos a esse ponto.

Nas plataformas, a campanha de Lula denunciou tratamento desigual por parte das Big Techs, principalmente a Meta, e especialistas da ONU pediram explicações sobre as restrições. A empresa reconheceu falhas em seus sistemas, mas negou interferência intencional. Falhas técnicas, claro. Que, curiosamente, parecem tropeçar sempre para o mesmo lado.

Tudo isso num contexto em que Flávio Bolsonaro foi aos Estados Unidos pressionar as instituições brasileiras antes da eleição. Pedir ajuda estrangeira contra o próprio país e depois se dizer patriota exige um certo talento.

Flávio Bolsonaro e Donald Trump. Foto: reprodução

É aqui que o resultado brasileiro transborda as fronteiras. Uma vitória da família Bolsonaro entregaria ao trumpismo o maior país da região como plataforma. Não por acaso, o comportamento dos vizinhos depois do resultado funcionou como um teste de caráter.

O chileno Kast telefonou para Lula e defendeu uma agenda de integração econômica e combate ao crime organizado. Fujimori, no Peru, Noboa, do Equador, Peña, do Paraguai, Paz, na Bolívia, são outros governos à direita que parabenizaram Lula.

Já Milei passou o dia em silêncio na residência de Olivos, depois de ter chamado Lula de “esquerdista ladrão” dias antes da votação. A diferença entre uma direita que perde e liga para dar parabéns e uma extrema direita que perde e grita fraude é justamente a diferença entre democracia e o seu simulacro. O Brasil ajudou a deixar essa linha mais visível para o continente inteiro.

Nos Estados Unidos, espera-se a reação de Trump, que pode ou não reconhecer a eleição – enquanto a União Europeia, a China, a Índia, o Canadá, enfim, o mundo, já está reconhecendo. Muitos países, com um certo alívio, como o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, torcendo para que aconteça por lá o que aconteceu por aqui, um freio à estrema direita.

Mas que ninguém confunda freio com marcha à ré. A extrema direita segue forte, organizada, financiada e com acesso privilegiado às engrenagens digitais e agora com grande representação no Congresso e em governos estaduais. Qualquer obituário dela é prematuro, assim como foram os do PT.

Isso também não significa que nasceu uma frente democrática coesa, pronta para os próximos quatro anos. Seria ingenuidade acreditar nisso. Há diferenças profundas entre seus integrantes, disputas legítimas e enormes dificuldades de articulação. Mas algo foi construído. E seria uma irresponsabilidade política gigantesca deixar que essa energia se dissolvesse na euforia da vitória, que costuma ser tão desmobilizadora quanto a ressaca da derrota.

Porque a sociedade que foi às ruas não assinou cheque em branco. Ela também precisa vigiar o lado vencedor. Lula disse que vai governar para 215 milhões de brasileiros e falou em regular as redes sociais. Ótimo, que seja cobrado por isso, e por cada concessão que fizer em nome da tal governabilidade.

Caberá à sociedade e à imprensa um trabalho intenso de fiscalização e de monitoramento das garantias constitucionais dos trabalhadores, das mulheres, da população negra, dos indígenas, das pessoas LGBT+, dos pobres, dos aposentados e de todos aqueles que costumam ser os primeiros a pagar a conta.

O recado vale também para os pequenos ditadores, os “guardinhas da esquina”, que poderiam interpretar o clima de contestação como licença para fazer aquilo que a Constituição proíbe.

Direitos não foram entregues de mão beijada por governantes benevolentes. Foram conquistados ao longo de séculos, costurados com sangue, suor, coragem e a saudade deixada por quem perdeu a liberdade, a família ou a vida. Não são concessões do presidente da República, de nenhum deles. Portanto, não estão à disposição de ninguém para serem retirados.

O fim da 6×1, por exemplo, não foi presente do governo, mas resultado de décadas de luta, que teve, na reta final, a participação fundamental de nomes como Rick Azevedo e Erika Hilton.

Ao longo do mundo, o autoritarismo prosperou quando conseguiu convencer cada pessoa de que ela está sozinha. O segundo turno deixou uma resposta a essa tentativa de isolamento. E não é a crença em salvadores da pátria (eles não existem, vestindo vermelho ou amarelo), mas a recusa a entregar o futuro sem resistência, denunciando injustiças e sustentando a pressão democrática quando as câmeras forem embora.

Não há garantia de que a resistência vencerá todas as batalhas. Mas há uma diferença fundamental entre enfrentar tempos sombrios isoladamente e atravessá-los sabendo que existe uma comunidade política disposta a não abandonar ninguém. Nem aqui, nem do outro lado da fronteira.

A eleição terminou. A disputa pelo tipo de país, de continente e de mundo em que viveremos, não.