
Uma das pautas mais cansativas, mesmo que aparentemente complexa, e que se repete sempre depois de cada eleição, é a que busca explicações para os erros dos institutos de pesquisa.
Nesta eleição, ficou claro que todos os institutos jogaram com a possibilidade de vitória de qualquer um dos candidatos, com retratos do momento dentro da margem de erro, mas projetando a vitória de Flávio Bolsonaro.
Essa projeção, na maioria dos institutos, lidava com diferença entre 1 e 2 pontos em favor do bolsonarista. O que criava uma margem de segurança para o fenômeno que vem desde as eleições de 2018: a direita sempre tem mais votos do que as pesquisas revelam dias antes.
Foi assim no primeiro turno deste ano, quando o Datafolha, para ficar no exemplo mais citado, indicou Lula com 45% dos votos e Flávio com 42%. Flávio terminou o primeiro turno com 47,03%, enquanto Lula recebeu 45,16%.
Andrei Roman, CEO da AtlasIntel, é um caso raro de dirigente de instituto que vem a público e admite que suas pesquisas erraram, assim como as amostras do Datafolha e Quaest. O Atlas previu 50,8% para Flávio contra 49,2% dos votos válidos para Lula.
No fim das contas, o medo de subestimar Flávio Bolsonaro — diante da perseguição judicial constante do TSE e da promessa de CPI das pesquisas — fez todos os grandes institutos superestimarem seu desempenho na margem.
— Andrei Roman (@andrei__roman) October 25, 2026
O resumo do que ele considera erro é este: com medo de subestimar Flávio, como aconteceu com toda a direita desde 2018, os institutos usaram ‘modelos’ de aferição das intenções de voto que criaram uma gordura para o extremista.
Aconteceu o que vimos, a diferença pró-Lula foi de 3,58 pontos percentuais (51,79% x 48,21%). Nenhum instituto captou o efeito da mobilização pró-Lula no segundo turno, num movimento histórico nunca registrado desde a redemocratização.
A síntese possível seria a seguinte. Os institutos criaram um retrato próximo do que poderia acontecer, numa situação normal, com Flávio levemente à frente. Se ganhasse com um ou até três pontos de diferença, tudo bem.
Mas esta eleição foi anormal e Flávio perdeu. E a diferença do resultado final para as pesquisas foi, na média, de quase cinco pontos. Foi um erro grosseiro, que as empresas podem atribuir a ‘modelos’ errados.
O que aconteceu foi que os institutos foram enganados pelo eleitor e por seus próprios métodos. A gordura de outras eleições pró-direita não existiu desta vez.
O resultado desafia os medidores de intenções de voto a reavaliarem seus métodos. Para as eleições para presidente, eles terão quatro anos para tentar melhorar, ou até piorar seus ‘modelos’.