Diário do Centro do Mundo | O que interessa e nada mais

Logo DCM
Logo DCM
Apoie o DCM

Convulsão mercado-algorítmica. Por Davi Spilleir

Lula. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Bastaram algumas horas da sagração da vitória do presidente Lula para que os tais mercados entrassem em convulsão. Até o fechamento deste texto, os indicadores pareciam colapsar: o Ibovespa atingira os 174.788 pontos, com queda de quase 15%; o dólar acumulando ganhos que beiravam 10% frente ao Real, ações varejistas com perdas da ordem de 55% e as principais páginas de jornais invadidas por novos boletins econômicos reajustando as projeções de PIB, inflação e demais indicadores para este ano.

E a grande pergunta é: por quê? O que mudou de forma tão abrupta no cenário político-econômico para que, de um dia para o outro, parecêssemos estar na antevéspera de uma tragédia? A resposta é apenas uma: nada, a não ser a frustração de expectativas rentistas.

Não é de hoje que os tais mercados manifestam essa verve colérica e punitivista no tratamento dispensado a Lula. Em 2002, em meio à campanha presidencial que o conduziria pela primeira vez à Presidência da República, foi necessário que o então candidato divulgasse a célebre Carta ao Povo Brasileiro, na qual reafirmava seu compromisso com a estabilidade econômica e o respeito aos contratos.

A escolha de vice-presidentes mais alinhados à direita (José Alencar e Geraldo Alckmin), de um presidente ortodoxo para o Banco Central (Henrique Meirelles) e de um ministro da Fazenda igualmente ortodoxo (Antonio Palocci) integra a somatória de chás e simpatias que os governos do petista concederam, ao longo dos anos, aos mercados.

Bolsa. Foto: Reprodução

Além disso, o desempenho econômico do terceiro governo Lula também deveria assegurar tranquilidade: o Ibovespa saltou de 106.376 pontos para 205.082 (dados de 23/10/2026), consagrou os maiores Planos Safra da história no biênio 2025/26 (respectivamente 606 e 610 bilhões de reais), saldos da balança comercial com superávit em todos os anos, com recorde histórico em 2023 (US$ 98,84 bi), além dos grandes bancos atravessarem um dos ciclos mais rentáveis da história recente do setor financeiro brasileiro.

Um governo que se vangloria de que bancos nunca ganharam tanto dinheiro não pode ser visto como insurgente ou disruptivo.

Como a realidade demonstra, os mercados tentam fazer com que César seja também o senhor da realidade. A convulsão dos mercados não está calcada em qualquer fundamento histórico, mas na tentativa de criar um factoide para desestabilizar o governo recém-eleito e fazer parecer que uma débâcle financeira se avizinha. Para cólera dos mercados, que se associam aos algoritmos para disseminar a pretensa ideia de caos, foi justamente essa pauta que saiu derrotada das urnas no último domingo. Que ganhem as eleições, caso queiram governar.

Até lá, convém lembrar que o mercado não é soberano: o povo é.