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Sakamoto: Trump usará Flávio mais uma vez, mas senador tem prazo de validade

O então candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, em ato na praia de Copacabana, com bandeira dos EUA. Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Flávio, para a surpresa de ninguém que acompanha a sitcom Os Bolsonaros, fugiu para os Estados Unidos com medo das investigações por corrupção e lavagem de dinheiro que pesam contra ele. Foi ajudado pela Casa Branca, que deve usar o senador para arrancar mais concessões do Brasil. Porém, Donald Trump já demonstrou publicamente que não gosta de perdedores sem poder. Se Lula, o Itamaraty e o empresariado forem hábeis, em pouco tempo restará a Flávio o papel de youtuber extremista, sem o mesmo carisma que Paulo Figueiredo e Allan dos Santos. Pois, enquanto ele se autoproclama líder da oposição no (auto)exílio, em Brasília a direita já se reorganiza para substituir o clã. A fim de manter os eleitores bolsonaristas engajados, qualquer novo nome — Tarcísio, Michelle, Nikolas — continuará defendendo a “liberdade” do patriarca e dos dois filhos, mas sem querer, de fato, que ela aconteça. Em suma, a fila anda.

Trump jogou pesado para eleger o senador, que estabeleceria uma relação de vassalagem comercial e geopolítica com os Estados Unidos. Se o Brasil caísse, o México em breve cairia, consolidando o continente americano como quintal. Aplicou tarifas, ameaçou o Pix, botou Big Techs para ajudar, fez declarações ameaçadoras, soltou dinheiro para atacar o STF, contou mentiras. Mesmo com tudo isso, perdeu. Sim, a democracia é uma delícia.

Flávio pode ser útil ao governo dos EUA para arrancar mais concessões de Lula. Mas o Brasil não é a Venezuela, apesar do que acredita o pessoal com chapéu de alumínio. O mundo, com exceção de Trump e suas marionetes, reconheceu o resultado de nossa eleição. Maduro era detestado ou desprezado por boa parte da comunidade internacional; já Lula, que já era bem quisto, saiu maior da eleição por ter mostrado que é possível conter o avanço da extrema direita e de Trump. É disso que falam as manchetes mundo afora. A ideia de que o Brasil vive uma ditadura, arrotada pelo bolsonarismo-raiz, não para em pé. E ignora que o partido de Flávio é o maior do Congresso Nacional, conta com seis governadores; o seu irmão foi eleito senador; o outro, deputado federal; a madrasta, senadora.

Trump não gosta de derrotados. Mais do que isso: ele não gosta de pessoas vistas pelo mundo inteiro como derrotadas. As urnas não entregaram ao senador o Palácio do Planalto, mas o papel de líder da oposição, com mais de 59 milhões de votos. Pensando em si mesmo, como sempre acontece com Os Bolsonaros, ele se pirulitou para os EUA, colocando em risco esse papel e desprezando a confiança de seus eleitores. Nesse sentido, o Flávio, o Fujão, vestiu a carapuça de derrotado. Pode ter a mão de Marco Rubio, em sua cruzada contra a esquerda latino-americana, mas terá o desprezo do presidente. Essa relação também tem prazo para acabar.

Donald Trump e Marco Rubio na Carolina do Norte. Foto: REUTERS/Jonathan Drake

Trump deve levar uma derrota dolorida nas eleições de meio de mandato na semana que vem, podendo perder Câmara e Senado. Parlamentares democratas já avisaram que Flávio não terá vida fácil e algumas tentativas de extorquir o Brasil devem ser barradas no Congresso. Se Rubio conseguir ser o candidato republicano em 2028 e vencer, o Brasil e o mundo terão problemas. Mas, dada a baixíssima popularidade do atual governo, é bom que Flávio torça para a permanência de Giorgia Meloni à frente da Itália. Pois terá que seguir os passos de Carla Zambelli e usar seu passaporte italiano para buscar refúgio por lá.

Durante anos, Os Bolsonaros venderam ao país um patriotismo de camisa da seleção e continência à bandeira — inclusive à norte-americana. Na hora da conta, esse patriotismo coube numa mala de mão. Antes, Flávio jurou que reconheceria a derrota; depois, disse que ficaria e entregaria os passaportes. Logo depois, estava ele dando uma banana ao Brasil rumo à Flórida no melhor estilo Marco Aurélio na primeira versão de Vale Tudo.

Sem mandato a partir de fevereiro, sem palanque, com prazo de validade em Washington e eleitores que começam a perceber que foram deixados para trás, resta a Flávio, O Fujão, o destino de todo personagem que já entregou o que tinha a entregar: virar reprise. O Brasil, tratado como quintal por Trump e pelos próprios Bolsonaros, mostrou nas urnas que não tem dono, a não ser o eleitor. Flávio pode até liderar parte da oposição de um condomínio em Miami. Mas a história costuma ser impiedosa com personagens como ele. Não se lembra deles como exilados, mas como desertores. Verás que um filho teu não foge à luta? Ahã, sei.