
Tenho duas tias que ajudaram a salvar a democracia. Uma tem 88 anos. A outra, 95. Nenhuma delas é petista. Nunca foram. Mas as duas votaram em Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno da eleição presidencial de 2026.
Talvez essa história seja comum para muitos. Cada uma é particular à sua maneira. Teté, a de 88, irmã caçula do meu pai Emir Nogueira, me mandou uma mensagem que vale mais do que todas as análises que eu li do pleito presidencial.
“Fui votar em Lula contra a vontade de meus filhos. Foi um sacrifício. Eu espero que ele não nos decepcione, que faça um governo melhor, com sabedoria. Não sou petista, não votei no primeiro turno porque não tive quem me levasse porque não queriam que eu votasse em Lula. Mas me preparei para votar no segundo”, me disse pelo WhatsApp.
Li e reli essas palavras.
Há uma grandeza extraordinária nelas. Minha tia não está falando de fidelidade partidária, de militância ou de uma paixão tardia por Lula. Está falando de uma decisão pessoal, tomada quando o voto já não é obrigatório e quando sair de casa para chegar a uma seção eleitoral exige um esforço enorme.
Lili, a de 95, foi levada à urna por meu primo Marcelo. Me enviou figurinhas bem humoradas na volta. Penso no que essas duas mulheres já viram no Brasil. Ambas professoras, ambas de Cravinhos, interior de São Paulo, atravessaram o Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial, a vinda para São Paulo, o suicídio de Getúlio Vargas, a construção de Brasília, o golpe militar de 1964, a ditadura, a redemocratização, a Constituição de 1988, e todas as crises políticas que vieram depois.
Viram presidentes assumirem e caírem. Viram o país mudar de moeda, de regime, de costumes e de expectativas. Não precisaram se tornar petistas para compreender a dimensão daquela escolha.
Esse é um aspecto da vitória de Lula que os números das pesquisas não conseguem contar. Entre os milhões de votos que decidiram a eleição, há histórias de pessoas que simplesmente chegaram à conclusão de que era preciso conter o cafajeste golpista Flávio Bolsonaro.
Minha tia Teté não escreveu que Lula é maravilhoso. Não disse que confia cegamente nele. Pelo contrário, fez uma cobrança antes mesmo de começar o novo mandato: “Eu espero que ele não nos decepcione, que faça um governo melhor, com sabedoria”.
Ela não está entregando um cheque em branco ao presidente. Está depositando nele uma esperança acompanhada de exigência. Quer um governo melhor. Quer sabedoria. Quer que o esforço que fez para votar tenha valido a pena.
Nos últimos anos, vimos famílias se dividirem por causa da política. O bolsonarismo entrou nas casas, nas conversas de domingo, nos Natais, nos grupos de WhatsApp e nas relações entre pais e filhos, tias e sobrinhos. Em muitos casos, a discordância deixou de ser apenas uma diferença de opinião e virou ódio.
Pois Flávio nos uniu. Certamente há outras Tetés e Lilis. Quando penso no Brasil que saiu das urnas no domingo, não penso apenas nas imagens da Avenida Paulista lotada, nos discursos, nas comemorações, nas cenas grandiosas.
Tudo isso é lindo, mas penso nas minhas duas tias. Lula tem uma responsabilidade gigantesca: não decepcionar Teté e Lili. Se fizer isso, está reeleito para mais oito mandatos.