
O escritor Carlos Heitor Cony compartilhou esta frase de Machado de Assis em crônica que publicou em 1994 na Folha de S.Paulo: “No meu tempo já existiam velhos, mas poucos”. Poucos porque, no final do século 19, os velhos não duravam muito.
Bento Santiago, o personagem de Dom Casmurro, é um velho com menos de 60 anos, quietão, amargo e solitário. Outros personagens da literatura do próprio Machado e de escritores daquele tempo são velhos com pouco mais de 50 anos. Hoje seriam apenas homens maduros.
Os velhos viraram idosos e pessoas da terceira idade, por convenções que definem o tempo de vida. E deixaram de ser poucos, multiplicaram-se. O Brasil tem mais de 22 milhões de pessoas com idades acima de 65 anos, que representam em torno de 11% da população.
Machado poderia dizer hoje que existem muitas velhas. Há mais mulheres do que homens idosos, porque as mulheres vivem mais. De cada dez votos de velhinhos que saíram de casa no segundo turno, sete eram de velhinhas.
E, por isso, pelo que se viu na eleição para presidente no segundo turno, apareceram mais mulheres idosas do que homens para votar. As redes ficaram enfeitadas de fotos delas.
Machado ficaria espantado com tantas velhinhas, não de 59 anos, a idade que tinha quando morreu, mas com mais de 90. Filhos, netos, sobrinhos, vizinhos e amigos levaram suas velhinhas para votar. Caminhando com muletas, em cadeiras de rodas, sentadas em cadeiras comuns carregadas pelos filhos. Levadas no colo.
Nunca se viu tantos idosos se mobilizando para votar. A maioria fazendo o “L” de Lula, porque a presença deles nas seções eleitorais era o resultado de um apelo do presidente, disseminado pelo novo fenômeno de massa do mundo virtual André Janones.
Os velhos do tempo de Machado e do próprio Cony não podem ser comparados aos idosos do tempo de Lula. O próprio Lula é um idoso que fez agora 81 anos. Os velhos de Machado viviam num tempo em que, a partir dos 60 anos, como prova seu personagem Bentinho, começavam a lidar mais com o passado do que com o que lhes restava de futuro.
Os idosos que foram votar no segundo turno pensam num futuro que não é apenas o da semana que vem. É o futuro do ano que vem deles e dos netos. Um dia, cronistas, jornalistas e cientistas terão de estudar, com o distanciamento do tempo, o que aconteceu nesta eleição. Porque as velhinhas de Lula reabilitaram o sentido de futuro para quem tem mais de 90 anos.

Por que gente com mais de 90 anos atendeu ao apelo para que saísse de casa e fosse votar, junto com os jovens que também ouviram os apelos de Lula? Porque o sentido de pressa passa também pelo sentimento de que é preciso viver mais e da melhor forma possível, sonhando com os 100 anos.
O que as velhinhas foram fazer, muitas com sacrifício, até as seções eleitorais, muitas vezes distantes de suas casas, se a extrema direita as induziu a pensar que a democracia não vale tanto sacrifício? As velhinhas de Lula foram votar porque seus familiares precisavam viabilizar o seu direito de votar.
O que se viu, nesses tempos de etarismo criminoso, foi gente se dedicando a uma ostentação: olhem minha velhinha, curtam sua foto, aplaudam seu civismo. O brasileiro teve uma chance única de exaltar e homenagear seus idosos.
E lá foram os nossos velhinhos garantir seus direitos, que a Faria Lima quer trocar por arrocho fiscal. As velhinhas com 80 ou 90 anos foram defender o que conquistaram, e teve gente votando com a Constituição na mão. Netos que levaram as avós nem haviam nascido quando a Constituição foi promulgada, em 1988.
Os jovens e os velhos nunca votaram tanto desde a redemocratização. Estavam cadastrados como eleitores 8,7 milhões de pessoas com mais de 70 anos. Quase 40 mil têm mais de 100 anos, e alguns deles foram vistos em fotos compartilhadas nas redes.
Eles e os jovens saíram da eleição como vitoriosos. Uma geração votou pela primeira vez e outra pode ter votado pela última. Venceram. Inclusive os que não votaram em Lula, mas terão suas conquistas preservadas. Os idosos foram para as ruas e a elas devem voltar, não só na eleição.
Publicado originalmente no Extra Classe