
A polarização da eleição presidencial ultrapassou as urnas e chegou às escolas. Após a vitória de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), estudantes de diferentes estados passaram a relatar ofensas, ameaças e perseguições relacionadas às posições políticas de suas famílias. No Rio de Janeiro, um dos episódios terminou em boletim de ocorrência na Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV).
O caso ocorreu em uma escola da Barra da Tijuca. Uma página fechada no Instagram, identificada como @sapfofocanews e criada por alunos, publicou fotos de adolescentes que participaram de manifestações ou fizeram postagens favoráveis a Lula. As imagens vieram acompanhadas de ataques como “Devem ser pobres e não sabem de nada”, “isso é coisa de pobre”, “já viu a casa dele? Mora na Barra, mas a casa é de pobre” e “meninas nojentas”.
Em uma das publicações, uma estudante também teria recebido uma mensagem interpretada como ameaça: “Sei de muita coisa sua”. Pais dos alunos expostos procuraram a polícia, e o caso foi registrado como injúria e ameaça. A escola conversou com turmas e responsáveis, mas, segundo os relatos, os autores do perfil ainda não haviam sido identificados.

Situações semelhantes apareceram em outras regiões depois do segundo turno. A Folha registrou que a maioria dos casos aos quais teve acesso envolvia filhos de apoiadores de Bolsonaro atacando colegas de famílias favoráveis a Lula, embora também tenha localizado denúncia no sentido contrário, de um estudante de 16 anos que disse ter sofrido perseguição por apoiar Flávio no Distrito Federal.
Em Foz do Iguaçu (PR), a mãe de um menino de 12 anos relatou que o filho foi cercado por colegas e chamado de “petista nojento”. “Quando o ódio político ultrapassa a esfera do debate e passa a violentar psicologicamente crianças no ambiente escolar, fica claro que perdemos todos os parâmetros de humanidade e convivência democrática”, escreveu.
Em São Paulo, uma estudante de 12 anos da Escola do Futuro ficou aos prantos após ser pressionada por colegas, segundo o pai. Já no Colégio Bandeirantes, outro responsável relatou que uma aluna disse que sua filha deveria ser estuprada por apoiar Lula. As duas instituições afirmaram que não toleram intimidação, discriminação ou desrespeito e disseram ter adotado medidas para lidar com os episódios.
Para a psicóloga Vera Rocha Resende, da PUC-SP, a reprodução do discurso de ódio dos adultos afeta diretamente a formação das crianças. “Prejudica a concepção de mundo, de vida, implantando raízes muito negativas”, afirmou à Folha. Segundo ela, a divisão entre “nós” e “eles” dentro de casa pode acabar sendo levada pelos filhos para o convívio escolar.