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Sakamoto: vingança de patrões pela derrota de Flávio aprofunda divisão do Brasil

Campanha criada por bolsonaristas para “demitir petistas”. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL

Passamos a campanha inteira ouvindo que o grande mal do país era o “nós contra eles”. Que era preciso pacificar o Brasil, baixar a temperatura, respeitar quem pensa diferente. Pois bem. A urna foi aberta, o resultado saiu, o mundo inteiro reconheceu (com exceção de Trump e Milei) e uma parte dos que pregavam a concórdia descobriu uma nova vocação: a de Inquisidor de RH.

Depois que Lula venceu Flávio Bolsonaro no segundo turno, pessoas que se apresentam como empresários e políticos passaram a defender nas redes a demissão de funcionários que votaram no presidente reeleito. A coisa ganhou até nome de campanha publicitária, “Demita um petista”, como se fosse promoção de supermercado.

Não foram apenas perfis anônimos com bandeira no avatar. Uma vereadora no Paraná (não vou dar nomes a fim de não alimentar os pombos) pediu a seus seguidores que demitissem funcionários e rompessem com prestadores de serviço e amigos que votaram em Lula. Uma deputada estadual no Rio sugeriu que empresários fuçassem as redes sociais dos empregados para identificar apoiadores do presidente.

Ou seja, gente eleita pelo voto incentivando a punição de quem votou. Rapaz… Se fosse roteiro de filme, o produtor devolveria por falta de verossimilhança.

E não é bravata isolada. O Ministério Público do Trabalho somou 3.529 denúncias de assédio eleitoral em 2026, até esta quinta (29), superando as 3.373 de toda a eleição de 2022. Mais de mil delas chegaram depois de 26 de outubro, isto é, quando já não havia mais voto a ser comprado ou coagido. É vingança.

A legislação proíbe demissão motivada por preferência política, seja o trabalhador eleitor de Lula, de Flávio ou de qualquer outro candidato. Comprovada a discriminação, o empregado pode pedir indenização por dano moral e escolher entre a reintegração com pagamento do período afastado ou receber em dobro a remuneração desse período.

O problema é que nenhum patrão vai escrever na carta de demissão que está mandando alguém embora por discriminação, o que é crime. Vai ser “corte de custos”, “reestruturação”, “não está performando”. E o trabalhador, que precisa pagar o aluguel no dia 5, sabe disso melhor do que ninguém.

Aqui está a hipocrisia em estado puro. Os mesmos que passaram anos bradando contra a “ditadura”, a “censura” e em defesa da liberdade de expressão acima de tudo agora defendem que a pessoa perca o sustento por ter apertado o número 13 na urna. A liberdade de expressão, pelo visto, vale para o dono da empresa. Para o operador de caixa, vale o silêncio.

E há uma assimetria que não dá para fingir que não existe. Um funcionário que votou em Flávio não tem como demitir o patrão que votou em Lula. A relação de trabalho já é desigual por natureza. Quando o empregador usa o emprego como arma para punir uma escolha política, ele não está “exercendo sua opinião”, mas usando o poder econômico para ensinar uma lição a quem depende dele.

Ato pró-Lula. Foto: Reuters

A mensagem não é para o demitido, que já foi, mas para quem ficou, e para a próxima eleição. É o voto de cabresto em versão pós-pago: em vez de mandar votar, pune depois para garantir que da próxima vez o rebanho aprenda.

O veneno não ficou apenas nos escritórios apenas, mas chegou à escola.

Uma professora no Pará foi afastada depois de publicar nas redes mensagens incitando violência sexual contra filhos de eleitores de Lula. Repito, porque a frase precisa ser lida duas vezes para ser compreendida: uma educadora desejou violência contra crianças por causa do voto dos pais. A Secretaria de Educação abriu processo para rescindir o contrato por justa causa, e ainda bem. Mas o fato de alguém se sentir à vontade para escrever isso em público diz muito sobre o clima que foi cultivado.

No Rio, estudantes de uma escola na Barra da Tijuca foram expostos no Instagram, com ofensas sobre a condição social e ameaças, por terem manifestado apoio a Lula, e os pais registraram ocorrência na delegacia especializada. Mesmo depois das conversas promovidas pela direção, os adolescentes seguem ouvindo provocações de colegas nos corredores. Adolescentes não inventam esse tipo de desprezo de classe do nada, eles aprendem. Na mesa do jantar, no grupo de WhatsApp da família, no exemplo de adultos que tratam o adversário como inimigo a ser eliminado.

A escola deveria ser justamente o lugar onde se aprende a discordar sem odiar. Onde o filho do eleitor de Lula e o filho do eleitor de Flávio dividem a carteira, o lanche e a nota baixa em matemática. Quando ela vira palco de perseguição política, não estamos formando cidadãos, mas formando os próximos patrões que vão demitir por voto.

E, para não haver dúvida: se for um empresário petista demitindo eleitor de Flávio, ou um professor de esquerda humilhando aluno bolsonarista, seria igualmente abjeto e igualmente ilegal. O princípio não muda conforme a cor da camiseta. Quem só se indigna quando a vítima é do seu time não defende a democracia, defende a torcida.

Democracia é, entre outras coisas, aprender a perder. É aceitar que o vizinho, o colega de trabalho e o funcionário têm o mesmo peso na urna que você, por mais dinheiro que você tenha no banco. Quem não suporta isso e transforma a derrota em perseguição não tem moral nenhuma para acusar o outro lado de dividir o país.

O Brasil não está dividido porque metade votou de um jeito e metade de outro. Isso se chama eleição. O Brasil está dividido porque há quem não aceite que a outra metade exista.