
Por Leonardo Sakamoto no Uol
Poucos dias após a derrota de Flávio Bolsonaro, parte de seus aliados decidiu que a melhor forma de lidar com o resultado das urnas é punir quem votou diferente. Começaram uma campanha pela demissão de trabalhadores, boicote a comerciantes e bullying em estudantes que apoiaram Lula, chegando a desafiar lojistas de esquerda a pendurar a bandeira do PT na porta, para facilitar a vida de quem quer deixar de comprar deles (sim, plagiaram alguns dos piores momentos da história da humanidade).
Não vou dar nomes aos pombos, pois o que eles mais desejam é serem alimentados. Mas teve de tudo: deputado fundamentalista, empresário maníaco, influenciador mercenário. Se isso é triste, por outro lado, ajuda a explicar o resultado da eleição de domingo (25).
Ao longo da campanha, o bolsonarismo tentou vender um produto diferente. Prometeu superar a polarização, pacificar o país, unir os brasileiros. Um candidato mais moderado que o pai, de terno bem cortado e discurso de conciliação.
Mas o rótulo descolou nos debates. Na Band e, principalmente, na Globo, o eleitor viu um candidato agressivo, que fez piada com o dedo que Lula perdeu num acidente de trabalho como metalúrgico e zombou da forma de falar de um octogenário. Capacitismo e etarismo em horário nobre, para milhões de famílias que têm uma pessoa idosa ou com deficiência em casa.
Flávio Bolsonaro tenta humilhar LULA com frase capacitista de “9 dedos” e toma uma LAPADA HISTÓRICA no Debate da Globo! #Eleicoes2026 #DebateNaGlobo https://t.co/uMJLTqV7eF
— Pensamento Paralelo (@PensaParalelo) October 24, 2026
E viu Flávio diante de Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, menina de cinco anos morta por um tiro de fuzil em Niterói, em 2021. Defensor do policial acusado do crime, o senador dirigiu-se a ela chamando-a pelo nome da filha. A resposta, vinda da plateia, ecoou mais que qualquer propaganda: “Ela morreu”.
Com a eleição perdida, o senador resolveu tirar de vez a fantasia. Não reconheceu o resultado, pediu a anulação da eleição e, diante do pedido de apreensão de passaporte devido à investigação criminal que enfrenta em nada relacionado à eleição, fugiu para os Estados Unidos e, de lá, declarou-se o verdadeiro presidente eleito. Posteriormente, com um pito do governo Trump, corrigiu-se.
Parte dos aliados e seguidores, vendo o líder gritar nu, cheio de som e fúria (em uma versão cafona e medíocre de Macbeth), entenderam o recado: se não venceram nas urnas, tentam punir quem venceu. Não há mais por que fingir. E pelados, o que sobrou foi intolerância.
Isso significa que todos os que votaram em Flávio Bolsonaro são intolerantes? Longe disso. Milhões de brasileiros escolheram o candidato do PL porque estão insatisfeitos com o governo Lula, com o custo de vida, com a violência. Esse voto crítico é legítimo e merece respeito. E Lula, se for esperto, vai ouvir o recado das urnas em vez de tratar a vitória como cheque em branco.
Mas há uma parte, sobretudo do núcleo duro do bolsonarismo, que quer guerra, esmagando quem pensa diferente. Que fala o tempo todo em liberdade de expressão, mas a quer apenas para si.
Vale lembrar: o comerciante que votou em Lula paga imposto, gera emprego e atende eleitor de todos os partidos. O trabalhador não deve satisfação ao patrão sobre o que fez na cabine de votação, pois o voto é secreto justamente para isso. E o que o estudante aprende sendo tratado assim? A odiar.
Por isso, as instituições não podem ver o caso como barulho de rede social. É preciso punição rigorosa, nas esferas trabalhista, civil e criminal, para quem demite, ameaça ou incita perseguição. E imunidade parlamentar não pode virar salvo-conduto para estimular o constrangimento de cidadãos.
Por fim, não deixa de ser irônico. Agindo assim, esses políticos fabricam o próprio problema para 2030. O eleitor moderado está assistindo. E vai lembrar quem tentou transformar a derrota em vingança. E temer que, uma vez no poder, eles façam ainda pior.