
O deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL-SP), eleito para a Câmara dos Deputados, defendeu que a esquerda abandone o que chama de discurso de “superioridade moral” e passe a apresentar propostas capazes de animar o eleitorado. Aos 28 anos, ele assumirá o mandato federal em 2027 como um dos 14 parlamentares eleitos pelo PSOL.
Para Cortez, setores progressistas erram ao tratar eleitores de direita como se tivessem obrigação de concordar com a esquerda. “É uma ideia meio moralista de que nós somos racionalmente superiores”, afirmou em entrevista à Folha. Ele rejeitou a generalização de que todo eleitor de Bolsonaro seja fascista e criticou o uso da expressão “pobre de direita”.
O parlamentar eleito disse que seu campo político precisa falar mais de futuro e de medidas concretas, como o fim da escala 6×1. Na avaliação dele, Lula ampliou suas chances contra o bolsonarismo no segundo turno ao colocar temas desse tipo no centro da campanha.
Cortez participou de uma reunião de Lula com comunicadores digitais após Flávio Bolsonaro liderar a primeira rodada de votos. Ele afirmou que o encontro levou o presidente a reforçar sua atuação nas redes sociais e resumiu a conclusão do grupo: “Você não ganha da extrema direita na inércia”.

Renovação da esquerda e disputa nas redes sociais
Com 275,5 mil votos, Cortez alcançou a nona maior votação entre os 70 deputados federais eleitos por São Paulo. Ele avaliou que as urnas aceleraram a renovação da esquerda, impulsionando candidaturas jovens que tratam de pautas cotidianas e dominam a comunicação digital.
O deputado contrapôs esse movimento ao desempenho de José Dirceu (PT-SP), que não se elegeu apesar de ser uma aposta do partido como puxador de votos. Segundo Cortez, a idade média dos dez deputados mais votados do país foi de 31,6 anos, e esses nomes construíram forte presença nas redes sociais.
Antes de chegar à Assembleia Legislativa paulista, Cortez participou de atos contra o impeachment de Dilma Rousseff, as reformas trabalhista e da Previdência, Bolsonaro e a privatização da Sabesp. Em 2020, concorreu a vereador pelo PSOL em Franca e ficou entre os mais votados, mas não assumiu uma vaga por causa das regras do sistema proporcional.
Ele se elegeu deputado estadual em 2022 após ganhar projeção em um embate com Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro, a quem chamou de “ecocida”. Na Alesp, apresentou um projeto para incluir educação climática nas escolas estaduais, vetado pelo governador Tarcísio de Freitas, e também atuou contra taxas abusivas de ingressos e o cambismo digital.
Cortez pretende integrar a Comissão de Trabalho da Câmara e citou a atuação de Erika Hilton e Rick Azevedo na defesa do fim da escala 6×1. “Sou uma pessoa LGBT, e por isso acham que a gente só vai falar sobre os nossos temas. Não existe isso, porque LGBTs também trabalham, dependem de transporte público”, disse.
Ao tratar do avanço da extrema direita entre os jovens, Cortez afirmou que discursos antifeministas, masculinistas e ligados a “red pills” podem ter efeitos duradouros. “Você ganha eleição, ganha quatro anos. Agora, se tem uma geração que vai votar pelos próximos 40 anos com ideias de que mulher não deveria votar, de tradwives, machos alfas e red pills, isso é muito pior do que perder uma eleição”, declarou.