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O que os protestos na Europa ensinam sobre a eleição no Brasil

Manifestantes buscam proteção atrás de uma barricada enquanto a tropa de choque francesa utiliza canhões de água. Foto: Divulgação

Protestos liderados por jovens se espalharam por cidades da Europa nas últimas semanas, impulsionados pela precariedade das escolas, pelo custo de vida, pela dificuldade de acesso à moradia e pela falta de perspectivas de emprego. Na França, mais de 300 mil pessoas foram às ruas no sábado (31), e o Ministério do Interior registrou ao menos 290 prisões. Com informações da BBC.

As mobilizações atingiram cidades como Paris, Marselha, Milão, Roma, Florença, Madri, Lisboa, Bruxelas, Berlim, Frankfurt, Colônia e Hamburgo. Embora muitas manifestações tenham começado de forma pacífica, episódios de saques e confrontos levaram forças policiais a usar gás lacrimogêneo e canhões de água em alguns locais.

Na França, os protestos estudantis começaram no fim de setembro, com reclamações sobre falta de funcionários e más condições nos prédios escolares. A mobilização francesa passou a inspirar jovens de outros países, que usam redes como TikTok e Instagram para convocar atos e compartilhar palavras de ordem.

Em Barcelona, a hashtag #InstitutsIndignats chamou estudantes às ruas, em referência ao lema francês Lycées Indignés. Mais da metade dos detidos em confrontos na cidade no último fim de semana tinha menos de 18 anos; em Milão, a polícia também deteve adolescentes após episódios de violência.

Em Atenas, alunos e professores protestaram por melhorias na educação e contra o alto custo de vida. Foto: Divulgação

Em Madri e Lisboa, a alta dos aluguéis e dos preços dos imóveis está no centro das manifestações. A pesquisadora portuguesa Carolina Cruz, de 26 anos, afirmou à Reuters que pode perder a moradia com o fim próximo de seu contrato de aluguel. “Sou a primeira pessoa da minha família a ingressar em um programa de doutorado e, mesmo com tudo o que estudei, ainda não consigo me sustentar”, disse.

Os jovens também relatam temor de que a inteligência artificial reduza oportunidades de trabalho e de que a estagnação econômica impeça planos básicos, como terminar os estudos, alugar uma casa maior ou formar uma família. Em Milão, o manifestante Riccardo, de 22 anos, disse à AFP que os atos buscam fazer a população voltar a discutir esses problemas.

O diretor do Conselho Europeu de Relações Exteriores, Mark Leonard, atribuiu a tensão a crises acumuladas desde a crise financeira de 2007 e 2008, passando pela crise migratória de 2015, pela pandemia, pela inflação posterior à invasão russa da Ucrânia e pelos conflitos atuais no Oriente Médio. Para ele, redes sociais e algoritmos também aprofundam a polarização entre grupos com prioridades distintas.

Autoridades da França e da Bélgica afirmam que parte dos saques durante atos autorizados teve caráter oportunista e associam outros tumultos à ação de grupos ultrarradicais de esquerda. França e Itália prometeram cobrar os danos de responsáveis por depredações; o governo de Giorgia Meloni também defende responsabilizar pais por prejuízos causados por filhos menores de idade.

Os protestos dos jovens europeus também ajudam a compreender o que esteve em jogo na eleição presidencial brasileira de 2026. De um lado, Flávio Bolsonaro defendia um projeto de maior liberdade para o mercado, com menor intervenção do Estado na economia. Do outro, Lula apostava no papel do poder público como regulador das relações econômicas e garantidor de direitos sociais. As ruas da Europa mostram os limites da ideia de que o mercado, sozinho, pode assegurar uma vida digna. Moradia, educação, emprego e perspectivas de futuro, justamente as reivindicações que mobilizam uma geração inteira, dependem de políticas públicas e de um Estado comprometido com o bem-estar coletivo.